Vozes Feministas da Periferia


Por: Ana Júlia Gennari e Juliana Saiani Moysés

Sobre o Projeto

A história do movimento feminista é dividida em três ondas – nome que se dá aos diferentes momentos históricos pelos quais as mulheres passaram socialmente.

No Brasil, a primeira onda teve início no século XIX, com mulheres brancas como Nísia Floresta, que já na década de 1830, ao escrever Direitos das Mulheres e Injustiças dos Homens, se indignava com as desigualdades impostas ao gênero feminino. Esta foi uma movimentação política voltada a assuntos como o sufrágio universal, garantido apenas em 1932, e direito à vida pública, como níveis mais altos de escolaridade, trabalho e divórcio.

Ainda em 1860, de acordo com Amelinha Teles em Breve História do Feminismo no Brasil, houve um ativismo abolicionista feito por mulheres brancas que sinalizou o início do fim da escravidão. Estas mulheres passaram a se solidarizar com o povo negro a partir do momento em que se entenderam tambémcomo classe oprimida, ainda que de formas bem distintas. Como a elas era impedida uma vida pública, lutar pela abolição foi um ponto de partida para saírem do espaço privado e se colocarem na política coletivamente.

Isto, contudo, não as impediu, mais tarde, de negligenciar as pautas das mulheres negras dentro do movimento de mulheres quando estas já estavam livres – tampouco em apresentar forte relutância em reconhecer a luta das empregadas domésticas, como de Laudelina de Campos Melo, fundadora da primeira Associação de Trabalhadores Domésticos do Brasil,em 1936.

A segunda onda feminista veio na década de 1970, em meio à ditadura brasileira, e teve um viés de busca pelo direito ao prazer da mulher e contra a violência sexual, como também de forte militância política contra o regime totalitário que estava instaurado, com ênfase na luta pelos direitos civis e liberdade política. Segundo Cecília Toledo em seu livro Mulheres, o gênero nos une, a classe nos divide, este movimento teve participação massiva de mulheres acadêmicas, principalmente professoras, e tambémde sindicalistas.

Na década de 1990, chegou a terceira onda para discutir e desafiar o que havia sido estabelecido nas anteriores, bem como colocar a discussão feminista dentro da micropolítica, debatendo que as mulheres não são uma classe homogênea, e existem recortes a serem levados em consideração, como raça, classe, nacionalidade e origens culturais.

No entanto, o feminismo negrojá ganhava força no Brasil a partir da década de 1980 – entre o final da segunda onda e o início da terceira –, com intelectuais e militantes do movimento negro brasileiro. Mulheres como Thereza Santos, Sueli Carneiro e Lélia Gonzalez evidenciaram a invisibilidade da mulher negra e até mesmo o racismo e classismo existentes dentro do feminismo feito, até então, quase que em sua totalidade por mulheres brancas.

Em um país cuja história oficial é marcada por três quatros de escravidão, era de se esperar que boa parte da movimentação política feminista estivesse nas mãos de mulheres brancas e de classes mais abastadas. No entanto, é impossível falar sobre uma luta que busca a emancipação e liberdade das mulheressem olhar para o contexto de raça e classe, principalmente no Brasil.

Com o florescer do pensamento feministanaesfera pública brasileira nos últimos anos – tendo inclusive outubro de 2015 sido batizado como Primavera Feminista, diante da tamanha movimentação política de mulheres, tanto nas ruas como nas redes –, falar sobre o feminismo que não é feito dentro de espaços acadêmicos e de zonas centrais das cidades se torna ainda mais urgente, até mesmo pelas singularidades do contexto socioeconômico e político brasileiro, onde 54% da população é negra e vive majoritariamente em zonas periféricas.

Em São Paulo, de acordo com o Censo demográfico de 2010, feito pelo IBGE, quanto mais afastado do centro, maior a incidência de pessoas negras e menor as oportunidades de trabalho e a renda média por família. Enquanto em Parelheiros, extremo sul de São Paulo, 57% da população é negra, em Pinheiros, no centro, a porcentagem é de 7,3%.

Mapa da desigualdade de 2016 IBGE

Fonte: Mapa da desigualdade de 2016 IBGE

O termo periferia significa, além do conceito geográfico de “estar à margem”, o conceito social de exclusão. Porém, a despeito dos estereótipos negativos de passividade e alienação – que são propagados pelo senso comum e reforçados pela mídia tradicional – a movimentação política e cultural está muito bem organizada e pulsa nas periferias.

Assim, esta reportagem tem como objetivo contar as histórias denove coletivos e movimentos de mulheresfeministas nascidos e organizados em diferentes periferias de São Paulo. Justamente para evidenciar e dar espaço a estas vozes que militam e resistem às margensda cidade.

Zona Oeste

Levante Mulher

“Por Ariane, por Luana, pelas mães palestinas, por todas as mulheres que sofrem, por todas nós, nunca mais um minuto de silêncio: Levante Mulher!”

Crédito: Divulgação / Legenda: Miriam Selma e mulheres do Levante Mulher na Casa de Cultura do Butantã

Crédito: Divulgação / Legenda: Miriam Selma e mulheres do Levante Mulher na Casa de Cultura do Butantã

É a partir das duras histórias de violência sofridas por Ariane e Luana que a professora e atriz Miriam Selam teve a ideia de criar o Levante Mulher. Por isso, também, é com o nome delas que se encerra uma das principais peças do coletivo: As Rosas Falam.

As duas meninas, estudantes de teatro na Casa de Cultura do Butantã, entraram para as estatísticas resultantes do machismo: uma foi morta pelo namorado e outra sofreu estupro coletivo, com a participação de seu parceiro, poucas ruas abaixo da Casa de Cultura no Jardim Peri-Peri.

O grupo de teatro Mito, do qual elas faziam parte, é organizado por Miriam Selma e existe há mais de vinte anos. O trabalho artístico da atriz, professora e ativista, especialmente no que tange à negritude, é extenso, mas depois da violência sofrida por Ariane e Luana, em 2012, ela sentiu a necessidade de formar um grupo só de mulheres negras para trabalhar questões específicas da mulher, negra e periférica.

Michele Santos, de 32 anos e integrante do Levante, conta que “o nome do coletivo tinha que remeter à devolução da autoestima da mulher. Mulher não foi feita pra ser largada no chão, por isso Levante!”. As ações do grupo são voltadas para denunciar – por meio de músicas, peças e danças – situações de vulnerabilidade pelas quais as mulheres negras e periféricas passam diariamente.

crédito: Divulgação / Legenda: Michele Santos na Marcha das Mulheres Negras

Crédito: Divulgação / Legenda: Michele Santos na Marcha das Mulheres Negras

Todas as 12 integrantes do coletivo são negras e moram na periferia da zona oeste, com exceção de uma, que mora em Pirituba, zona norte e duas na zona sul. Assim como Michele, a maior parte do grupo é de mulheres lésbicas ou bissexuais, porém, bastante diverso em questão de idade, a mais nova tem 19 e a mais velha 45.

Apesar de ter nascido no Jardim Peri-Peri, o Levante percorre periferias não só da cidade, como também do estado de São Paulo inteiro. As ações de 2015 e 2016 chegaram em Jundiaí, Campinas, Ribeirão Preto e até fora do estado, em Brasília. Elas se reúnem semanalmente na Casa de Cultura do Butantã desde 2013 e costumam ocupar o espaço público em caminhadas e manifestações, além de realizar eventos em cursinhos populares e CEUs.


Dialogar o feminismo por meio da arte

Por que tratar de assuntos tão densos, como o genocídio da população negra e violência sexual, com arte? Michele nos explica que a arte é a forma não polida, “sutil, porém direta” de questionar e gerar reflexão sobre as violências naturalizadas no convívio diário.

Há, também, a preocupação em pensar no interlocutor e conversar a partir da sua realidade: “Você não chegan a periferia e fala ‘vamos discutir interssecionalidade’, porque isso acaba afastando as pessoas, já que muitas meninas ainda não se apropriaram do termo por não ter acesso a ele, ainda que elas vivenciem isso na pele. Por isso, a arte acaba sendo uma linguagem universal”.

O poder de diálogo a partir da crueza da realidadeque as intervenções artísticas do coletivo levantam é muito potente. Ao final de cada ato, o choque que dá lugar ao choro toma conta de um corpo que se enxerga ali: na poesia que narra o cotidiano, na performance que escancara as violências, na dança e na melodia que buscam a libertação dessas lógicas.

Crédito Ana Júlia Gennari / Legenda: Parede da Casa de Cultura do Butantã

Crédito Ana Júlia Gennari / Legenda: Parede da Casa de Cultura do Butantã

Michele conta que “a identificação é automática. Não tem como sair da interação da mesma forma. A arte tem um viés de entrar na sua mente sem você perceber, e quando você se dá conta já está tomado pelo que está acontecendo”.

O principal espetáculo do Levante chama-se As Rosas Falam. A peça retrata cenas cotidianas em que a mulher é alvo de algum tipo de violência, seja psicológica, física, moral ou social. Cada cena conta uma história diferente, abordando os mais diversos assuntos, desde aborto, maternidade, violência doméstica, relações abusivas, lesbofobia, até abuso sexual, feminicídio, genocídio da população negra, racismo e estética negra.

Quando nos deparamos com os dados sobre estupro e feminicídio, percebemos que as histórias das estudantes de teatro Luana e Ariane não são casos isolados. E a mulher negra é a figura mais afetada em ambas as estatísticas.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada no Brasil.

Estima-se que há 527 mil tentativas ou casos de estupros consumados por ano no Brasil, 89% são mulheres.

Estupro no Brasil. Uma radiografia segundo dados da Saúde

Fonte: Em nota técnica, Estupro no Brasil, uma radiografia segundo dados da Saúde, publicada pelo Ipea em 2014

Uma das cenas do Rosas que mais tem causado impacto nas pessoas, segundo Michele, é a da morte de Luana Barbosa dos Reis – mulher negra, mãe, lésbica de 34 anos que foi espancada até a morte por três policiais militares num bairro periférico de Ribeirão Preto em abril deste ano.

“Fizemos esta cena na caminhada lésbica e foi bem pesado. A galera chorou mesmo, a família da Luana tava lá e foi bem impactante. O que mais dói acho que é o descaso, porque você sabe que uma pessoa da sua família foi morta injustamente. Então acho que traz o mínimo de dignidade pra essa família, pra memória da pessoa, pra não ser só mais um número na estatística”.

O Mapa da Violência de 2015 mostra que o Brasil é o quinto país que mais mata mulheres no mundo: a cada uma hora e meia uma mulher é assassinada por um homem. Entre 2003 e 2013, o número de mulheres mortas em condições violentas passou de 3.937 para 4.762, registrando um aumento de 21% na década.

Mapa da Violência de 2015

Fontes: Mapa da Violência 2015

Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil

Fonte: Violência contra a mulher: feminicídios no Brasil

As conexões das mulheres negras e periféricas com a violência se dão de diversas maneiras: quando não são atacadas e mortas como Luanas e Arianes, são mães, filhas ou esposas das vítimas dos homicídios.

Justamente por isso, a pauta do genocídio da população negra é algo que fundamenta a luta do movimento feminista nas periferias.


Os símbolos e a estética negra como forma de resistência e emancipação

Muitas mulheres do Levante se conheceram no samba da Marcha das Mulheres Negras – que reúne diversos coletivos de mulheres negras e periféricas desde 2013. E também foi assim com Michele.

A analista de treinamento de 32 anos nasceu em Diadema e toca djembê – um tipo de tambor originário da Guiné, na África Ocidental – no bloco Ilú Obá de Min. Foi a partir do encontro do samba da Marcha de 2014, no qual o Levante fez um maracatu, que ela foi convidada por Miriam a fazer parte do coletivo.

Crédito: Ana Júlia Gennari / Legenda: Levante Mulher na Casa de Cultura do Butantã

Crédito: Ana Júlia Gennari / Legenda: Levante Mulher na Casa de Cultura do Butantã

O samba e a sua relação com as mulheres negras é tema de outro espetáculo do coletivo, o Tambores. O roteiro trata da importância da representatividade da mulher na música, especialmente no samba, e sobre a resistência da cultura negra.

A doutora em ciências sociais pela Unicamp, Kelly Adriano de Oliveira, com quem conversamos, explica que durante o período pós-abolicionista houve uma intensa perseguição a quaisquer sonoridades, sotaques, danças e religiosidades afro-brasileiras, por isso as mulheres negras foram fundamentais para a resistência do samba. Afinal, foi dentro dos terreiros das casas das tias baianas, no espaço privado e escondido, que o samba podia acontecer. Não à toa, a valorização da ala das baianas nas escolas de samba é uma forma de homenagear não apenas Tia Ciata – que foi grande símbolo desta resistência –, mas a memória de todas as tias baianas do samba.

O Levante procura inverter a lógica machista de que mulher está no samba necessariamente para sambar e incentiva que mulheres se apropriem dos instrumentos e da sua ancestralidade. “Na África, existiam alguns toques que só as mulheres faziam, porque elas estavam falando da fertilidade da terra. Elas tocavam e cantavam por conta da ligação entre a natureza e a mulher. A gente busca devolver pra mulher esses espaços que são dela”, conta Michele.


“A gente nasce preta, mulata, parda, marrom, roxinha dentre outras, mas tornar-se negra é uma conquista.” - Lélia Gonzalez

A busca por se encontrar dentro da negritude e reconhecê-la em si quando a sociedade ensina a negar tudo o que está fora do padrão branco e eurocentrado é outra forte questão que permeia o Levante Mulher. Tanto que o tema da estética negra, como amar o nariz largo, o cabelo crespo e a boca carnuda, abraçando-os como traços belos, está dentro de uma das cenas do Rosas.

As mulheres declamam e performam o texto Gritaram-me Negra!, da poeta peruana Victoria Santa Cruz, fazendo sentir as lindas palavras de força e luta que emanam dele.

Gritaram-me negra!


Tinha sete anos apenas,

apenas sete anos,

Como sete anos?!

Não chegava nem a cinco!


De repente umas vozes na rua

me gritaram negra!


Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!

"Sou por acaso negra?" - me disse

SIM!

"O que é isso, ser negra?"

Negra!

Eu não conhecia a verdade triste que isso ocultava.

Negra!

E me senti negra,

Negra!

Como eles diziam

Negra!

E retrocedi

Negra!

Como eles queriam

Negra!

E odiei meus cabelos e meus grossos lábios

e olhei apequenada minha carne tostada

E retrocedi

Negra!

E retrocedi...

Negra! Negra! Negra! Negra!

Negra! Negra! Neeegra!

Negra! Negra! Negra! Negra!

Negra! Negra! Negra! Negra!


E passava o tempo,

e sempre amargurada

Continuava carregando às costas

minha carga pesarosa

E como pesava!


Alisei meu cabelo,

pus pó-de-arroz na cara,

e em minhas entranhas retumbava a mesma palavra

Negra! Negra! Negra! Negra!

Negra! Negra! Neeegra!


Até que um dia em que retrocedia, retrocedia e estava prestes a cair


Negra! Negra! Negra! Negra!

Negra! Negra! Negra! Negra!

Negra! Negra! Negra! Negra!

Negra! Negra! Negra!


E daí?

E daí?


Negra!

Sim

Negra!

Sou

Negra!

Negra

Negra!

Sou negra!


De hoje em diante não quero

alisar meu cabelo

Não quero

E vou rir daqueles

que para evitar - segundo eles -

que para evitarmos algum dissabor

Chamam os negros de gente de cor

E de que cor?!

NEGRO


E como soa lindo!

NEGRO

E olha esse ritmo!


NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO

NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO

NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO

NEGRO NEGRO NEGRO


Por fim

Por fim compreendi

POR FIM

Ja não retrocedo

POR FIM

Avanço segura

POR FIM

E bendigo os céus porque quis Deus

que negro retinto fosse minha cor

E agora compreendi

POR FIM

Tenho a chave!


NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO

NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO

NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO

NEGRO NEGRO

Negra sou

Michele nos conta como participar do coletivo fez com que ela entendesse seu corpo como algo político e ganhasse uma representatividade que não é marginalizada: “meu cabelo não é tuín, duro, de Bombril. Eu consigo ver beleza, ver que ele tem uma estética própria e linda”.

Ela desabafa que compreender e conseguir enxergar isso umas nas outras como algo positivo é algo mais forte e importante do que possa parecer, já que as lógicas de exclusão e violência se dão, além de fatores como gênero e classe, pela cor de pele.

Antes de eu usar meu cabelo natural, quando eu o alisava as pessoas me chamavam de ‘morena’. Por que morena antes e negra agora se eu continuo da mesma cor, com os mesmos traços? O embranquecimento e colorismo pelos quais a gente passa é muito forte. E aí quando você chega num coletivo negro como o Levante ou o Ilu e vê todas as mulheres com seus cabelos naturais, isso fortalece sua autoestima e consequentemente sua negritude.

Se identificar como feminista não foi algo “tão despertador”, nas palavras de Michele, quanto entender as intersecções de opressão que sempre viveu. Sendo mulher, negra, lésbica e de origem pobre, ela conta que se sente fortalecida por descobrir e poder lutar -- coletivamente -- contra mecanismos que levam ela e tantas outras a serem excluídas de formas diferentes e doloridas.

Você pensa: ‘existem mulheres negras que têm uma história como a minha, que odiaram seu próprio cabelo, nariz, que já passaram por discriminação e estão aí, então eu também consigo! É diferente de ligar a TV e só ver empregada negra e médicos brancos. Ou estar em determinados locais em que você não se sente parte do lugar.

O sentimento de pertencer e se reconhecer – de forma positiva e política – em quaisquer espaços, e não mais a um único e determinado lugar que lhe é imposto, é algo revolucionário. “Você para de se sentir um ET, se apropria do que é seu, para de se sentir deslocada e começa a pensar em como reagir”, afirma Michele.

Michele também comentou que entender o feminismo e começar a militar no Levante a fez pensar sobre a construção da feminilidade da mulher negra -- que acaba sendo um dos grandes pontos de diferença entre o feminismo negro e branco. Já que “a mulher negra foi sociabilizada para ser forte e não frágil como a branca”, diz.

Ela explica que à mulher negra foi designado o papel de aguentar e superar as dores diárias, da perda e do racismo. “O filho dela é morto e ela sobrevive. Ela tem jornadas triplas de trabalho para manter a família, vai visitar o filho preso, o marido preso... Ela aguenta”.

Angela Davis disserta sobre este assunto em seu livro Mulheres, Raça e Classe, e à luz da escravidão estadunidense afirma que “o sistema escravagista definia o negro como propriedade. (...) Já que as mulheres eram vistas, não menos do que os homens, como unidades de trabalho lucrativas, para os proprietários de escravos elas poderiam ser desprovidas de gênero. (...) A julgar pela crescente ideologia da feminilidade do século XIX, que enfatizava o papel das mulheres como mães protetoras, parceiras e donas de casa amáveis para seus maridos, as mulheres negras eram praticamente anomalias”.

Assim, por terem tido uma formação diferente dentro de grande parte dos ideais impostos à construção da feminilidade branca, não foi ensinado à mulher negra que ela deveria ser frágil, fraca ou “dona de casa”. No entanto, Davis ressalta que a condição do ser mulher era lembrada às escravas quando convinha aos senhores, tanto quando eram incumbidas à função de “reprodutoras” ou “amas de leite”, de modo a ampliar a força de trabalho escrava, quanto no momento em que eram punidas:

Em geral, as mulheres eram uma força de trabalho completa – a menos que tivessem sido expressamente designadas para funções de “reprodutoras” ou “amas de leite”, casos em que às vezes sua força de trabalho era classificada como incompleta. Obviamente, os proprietários buscavam garantir que suas “reprodutoras” dessem à luz tantas vezes quantas fosse biologicamente possível. Mas não iam tão longe a ponto de isentar as mulheres grávidas ou as mães com crianças de colo do trabalho na lavoura. (...) Quando era lucrativo explorá-las como se fossem homens, eram vistas como desprovidas de gênero; mas, quando podiam ser exploradas, punidas e reprimidas de modos cabíveis apenas às mulheres, elas eram reduzidas exclusivamente à sua condição de fêmeas. (...) O estupro, na verdade, era uma expressão ostensiva do domínio econômico do proprietário e do controle do feitor sobre as mulheres negras nas condições de trabalhadoras.

Esta construção é vil às mulheres negras, segundo Michele, não porque o contrário – imposto às mulheres brancas – seja algo positivo, e sim porque, além de ser um resquício escravocrata, delimitar que elas não sentem tanto quanto as brancas é mais uma forma de desumanizá-las.

Ainda dentro disso tudo, Michele comenta sobre a solidão da mulher negra, que acaba sendo sempre a preterida, menos quando é para farrear e ser usada sexualmente. “Então pensa como é formado o inconsciente dessa mulher sobre si mesma? O cabelo dela não é ideal, os traços não são ideais, o seu corpo não é ideal, a menos que seja pra ser explorado e hiperssexualizado como a “mulata do carnaval” – que já é um termo racista por si só. Tudo isso tem que ser trabalhado para que a gente possa ter uma forma de redescobrir nossa autoestima”.

Crédito: Ana Júlia Gennari / Legenda: Levante Mulher na Casa de Cultura do Butantã

Crédito: Ana Júlia Gennari / Legenda: Levante Mulher na Casa de Cultura do Butantã


A crucificação da mãe em sociedade

Perguntamos à Michele sobre sua mãe, e ela começa a falar com brilho nos olhos. Conta que sempre viu em Dona Helena muita força, e que ela foi uma inspiração muito grande: “Um dos fatores que mais me motivou a ir atrás das minhas coisas é minha mãe falando: ‘você não é melhor nem pior que ninguém, nunca se esqueça disso. Você faz o que você quiser’. Minha mãe sempre me apoiou muito”.

Em contraste com a vivência de muita submissão de sua vó, Michele diz que em sua casa as tarefas eram bem divididas e quem sempre acabava dando a última palavra era sua mãe. “Eu nunca vi meu pai se impondo pra minha mãe, em contrapartida achava outras lógicas bem abusivas, como traição e o fato dele não se interessar em satisfazê-la”. Mesmo assim, ela sente que o feminismo já estava presente em sua vida por meio desse convívio com sua mãe, antes mesmo da palavra ter sido apresentada a ela há alguns anos pelas leituras da historiadora e blogueira Dulci Lima.

Sobre a questão da sua lesbianidade, Michele brinca que tem um “acordo de cavalheiros” com a família. Especialmente em relação à sua mãe, ela afirma não ter tido problemas, apenas um excesso de proteção em se preocupar que ela “se expusesse” e sofresse violências de uma sociedade ultraconservadora e lesbofóbica. “E até aí acho que tudo bem”, reflete. “Desde que ninguém me imponha nada, não preciso impor nada a ninguém. Isso não promoveu um apagamento da minha sexualidade porque minhas namoradas sempre conviveram em casa, e minha mãe sempre as recebeu super bem”.

Conversar sobre a relação com a sua mãe fez com que Michele lembrasse outra cena que ela considera bastante interessante do Rosas, em que as mulheres encenam a crucificação de uma mãe. “A gente sempre levanta o debate de que mães precisam ser incluídas no feminismo. Por que quem cuida dos seus filhos para você ir numa roda feminista? Neste ponto entra muito a questão da interseccionalidade, porque enquanto a mulher branca tá conseguindo viver sua vida política, ainda hoje quem fica encarregada de cuidar dos filhos dela é a mulher negra”.

Michele cita a página do Facebook Eu, Empregada Doméstica, que traz relatos de situações vividas por mulheres negras no exercício do trabalho doméstico: “Tem muita coisa denunciada nessa página que nos remete aos resquícios da escravidão. A mulher negra fica impossibilidade de cuidar dos próprios filhos ou de estar numa roda de debates sobre questões dela para cuidar dos filhos da mulher branca”.

Na cena da crucificação da mãe, ela descreve que as mulheres do Levante falam diversas frases que julgam, reprimem e sentenciam a mãe a um papel desumano. Para levantar o contraponto a esse tipo de pensamento, alguém no palco questiona, “mas e o pai?”. A resposta sempre evidencia a disparidade de tratamento que se dá à maternidade e à paternidade. Michele citou alguns exemplos dos diálogos travados em cena:

“- A mãe pode sair de casa, tem que cuidar do filho.
- Ah, mas e pai?
- É um santo! Visita a cada quinze dias.
- Ela não pode ter namorados, afinal é mãe.
- E o pai?
- ‘Tem uma namorada a cada semana’.”

Michele diz que as mães costumam assistir e se sentir muito representadas. O interesse é que as pessoas percebam como a sociedade é permissiva ao homem e enclausura a mulher. “O corpo de uma mulher é de todo mundo menos dela. Do marido, do filho, da sociedade que vai julgá-la. A gente precisa quebrar com isso”, desabafa.

A perda de autonomia do corpo da mulher também é pautada dentro do debate sobre a legalização do aborto que o coletivo traz. Michele diz que não percebe um tabu sobre o assunto dentro da “quebrada”, porque é um tema comum, as mulheres já abortam apesar de nunca ser algo fácil de lidar. “Eu me lembro de crescer ouvindo minhas tias falando que iriam tomar cytotec. É algo recorrente”. O problema que ela observa, e que o Levante coloca em pauta, é a falta de cuidado e amparo médico para que essas mulheres não morram em decorrência de abortos clandestinos.

Segundo dados da pesquisa Abortamento Seguro acontecem 22 milhões de abortos clandestinos (que em sua maioria são inseguros) por ano em todo o mundo.

O abortamento inseguro é a causa da morte de cerca de 47 mil mulheres por ano. É também a causa de disfunções físicas e mentais de cerca de 5 milhões de mulheres.

Michele diz se preocupar também com a repressão por parte de uma crescente evangelização que vê dentro da periferia. “Na quebrada, onde tem um bar, tem uma igreja. É um problema porque além de colocar ainda mais aquele sentimento de culpa na mulher, a igreja acaba roubando até sua estética. É muito difícil você ver uma menina evangélica com aquele blackzão”.

Crédito: divulgação / Legenda: Mulheres do Levante em ensaio do espetáculo As Rosas Falam

Crédito: divulgação / Legenda: Mulheres do Levante em ensaio do espetáculo As Rosas Falam

Ela nos conta que não há como deixar de fora o cenário político brasileiro das intervenções do coletivo. Antes de começar os espetáculos, Miriam, a organizadora do grupo de teatro Mito e do Levante, declama um texto sobre o significado político do teatro, o que é a democracia e sobre o conservadorismo e golpe parlamentar que se instaurou no Brasil. “Antes da cena, ela e outras meninas sobem ao palco em silêncio, com uma rosa na boca e ao som da música Cálice de Chico Buarque”.

Para Miriam, assim como para Michele e as demais integrantes do coletivo, não há possibilidade de fazer arte da maneira que o Levante faz sem que exista democracia. Para elas, a arte tem um potencial libertador e de luta, assim como o feminismo.

Zona Norte

Coletivo Cultural Esperança Garcia

Pense em uma escrava que, em 1770 – mais de um século, portanto, antes da Abolição da Escravatura no Brasil – teve a coragem de denunciar os maus tratos sofridos por ela, seus filhos e suas companheiras na fazenda em que trabalhavam diretamente a uma autoridade.

Essa é a história de Esperança Garcia, que em suprema ousadia,escreveu uma carta a ninguém menos do que o governador do Piauí, Gonçalo Lourenço Botelho de Castro. Uma carta de uma única página, toda cheia de garranchos e, claro, erros de português. Um documento inédito. O mais antigo de que se tem notícia escrito por uma escrava a uma autoridade.

Em uma época em que as mulheres eram mantidas praticamente analfabetas. Imagine-se, então, a relevância do documento assinado por uma mulher negra que, como todos os escravos, vivia em eterno exílio. No caso, a senzala à qual Esperança Garcia estava submetida era localizada na região de Oeiras, na fazenda de Algodões, a cerca de 300 km de Teresina, onde hoje é o município de Nazaré do Piauí.

A importância histórica desta mulher negra escravizada não bastou para tirá-la do ostracismo – ainda hoje, pouco se sabe sobre ela. No entanto, foi Esperança Garcia a inspiração para o surgimento de movimentos que lutam pela cidadania da mulher negra. É por causa dela que, desde 1999, 06 de setembro é o Dia da Consciência Negra no Piauí. Foi nesta data, em 1770, que Botelho de Castro denunciou os maus tratos sofridos por ela e suas companheiras de senzala, graças à carta que Esperança fez chegar em suas mãos.


Carta:

"Eu sou hua escrava de V. Sa. administração de Capam. Antº Vieira de Couto, cazada. Desde que o Capam. lá foi adeministrar, q. me tirou da fazenda dos algodois, aonde vevia com meu marido, para ser cozinheira de sua caza, onde nella passo mto mal. A primeira hé q. ha grandes trovoadas de pancadas em hum filho nem sendo uhã criança q. lhe fez estrair sangue pella boca, em mim não poço esplicar q. sou hucolcham de pancadas, tanto q. cahyhuã vez do sobrado abacchopeiada, por mezericordia de Ds. esCapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confeçar a tresannos. E huã criança minha e duas mais por batizar. Pello q. Peço a V.S. pello amor de Ds. e do seu Valimto. ponha aos olhos em mim ordinando digo mandar a Procurador que mande p. a fazda. aonde elle me tirou pa eu viver com meu marido e batizar minha filha q.

De V.Sa. sua escrava Esperança Garcia”

Carta traduzida:

"Eu sou uma escrava de V.S.a administração de Capitão Antonio Vieira de Couto, casada. Desde que o Capitão lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões , aonde vivia com meu marido, para ser cozinheira de sua casa, onde nela passo tão mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho nem, sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca; em mim não poço explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo, peada, por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar a três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a V.S. pelo amor de Deus e do seu valimento, ponha aos olhos em mim, ordenando ao Procurador que mande para a fazenda aonde ele me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha.

De V.Sa. sua escrava, Esperança Garcia"


Nasce o Esperança em São Paulo

Ao final de 2008, nascia o Coletivo Cultural Esperança Garcia. Naquele ano, um grupo de três mulheres periféricas se uniu em prol da causa das mulheres negras –desassistidas, discriminadas e segregadas. No horizonte delas, estava uma organização que buscasse um olhar mais generoso e solidário por parte da sociedade, a começar pelas periferias onde moravam –localizadas nos distritos de Pirituba, com mais de 160 mil habitantes e Vila Brasilândia, com mais de 250 mil, ambos ao extremo norte de São Paulo.

Para elas, o grupo era a oportunidade que lhes faltava para que as mulheres pudessem ocupar o espaço público e participar ativamente dos movimentos culturais da periferia – até então organizados somente por homens.

“A gente ia aos debates, estava nos lançamentos dos livros dos homens, carregava piano, cadeiras, fazia toda a produção cultural, mas não recebíamos reconhecimento algum”, conta Rachel dos Santos Almeida, jovem de 29 e uma das fundadoras do coletivo. “Por isso, resolvemos criar um coletivo só de mulheres”.

Legenda: Raquel Almeida na Subprefeitura de Pirituba / Crédito: Ana Júlia Gennari

Legenda: Raquel Almeida na Subprefeitura de Pirituba / Crédito: Ana Júlia Gennari

Raquel é, antes de qualquer coisa, filha de mãe e pai baianos, “a periferia é preta e nordestina”, ressalta. Ela é escritora, poeta, arte-educadora, e, atualmente, auxiliar de juventude na subprefeitura de Pirituba. “Sou organizadora do ‘Sarau Elo da Corrente’, um Coletivo Literário que tem como sede o bar do Santista, É lá que a comunidade se encontra para falar de literatura e produzir conhecimento, oral e escrito.”

Esses encontros deram origem a uma biblioteca comunitária, a um blog e a uma editora independente, a Elo da Corrente Edições, que publica obras dos artistas locais. Desde 2011, esse grupo realiza várias atividades, como: oficinas, cursos, encontros e reuniões no Espaço Cultural Elo da Corrente. Tudo para difundir a cultura nordestina e afro-brasileira das periferias.

Foi essa a semente que germinou para o nascimento do Coletivo Esperança Garcia. Raquel e suas companheiras – Juliana Balduíno, Samanta Biotti e Thaís Lopes do Sarau da Brasa – queriam dar início a um movimento cultural de que pudessem participar ativamente, principalmente através da Literatura.

“A gente queria ler”, conta Raquel. “E, para isso, tínhamos de estudar, pesquisar e ter alguém em quem pudéssemos nos espelhar. Nessa busca, conhecemos, enfim, Esperança Garcia, que deu o nome do coletivo.”

Assim, foi crescendo os movimentos das mulheres artistas das periferias que então despontavam. Um dos pioneiros foi o Coletivo Capulanas, inspirado nos panos de Moçambique, com grande riqueza de cores, usados para fazer as vezes da saia. Virou um movimento político, bem articulado, e que está na raiz do Coletivo Esperança Garcia.

“O Capulanas, companhia de arte negra, atraiu Carolzinha Teixeira, que não fazia parte de nenhum coletivo, mas que sempre foi muito atuante nas questões da mulher da periferia”, lembra Raquel. “Foi ela quem criou o logo do Esperança Garcia, quando ainda estava em formação”.

Muitas outras ativistas tiveram participação decisiva na formação do Esperança Garcia. O Coletivo foi tomando forma e cresceu muito, dentro e fora dos saraus. Assim, a questão feminina foi adquirindo importância que só fazia crescer o interesse pelo assunto, a ponto de agregar muitos outros coletivos com a mesma temática.

Legenda: Oficina de customização: compartilhando novos e antigos saberes no CRAS Brasilândia / Crédito: Divulgação

Legenda: Oficina de customização: compartilhando novos e antigos saberes no CRAS Brasilândia / Crédito: Divulgação

Um dos grandes impulsos do Coletivo Esperança Garcia ocorreu quando o grupo passou a participar do Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais – VAI. O apoio financeiro favoreceu a realização de atividades artístico-culturais, principalmente de jovens de baixa renda e de regiões do Município desprovidas de recursos e equipamentos culturais.

Foi assim que aconteceram as oficinas em Pirituba e em Vila Brasilândia, tão importantes para a inclusão social daquelas comunidades. O Coletivo também se beneficiou do Centro de Referência de Assistência Social – CRAS, um serviço de assistência para as populações de áreas de vulnerabilidade social, que sediou muitos dos encontros.

O Coletivo Esperança Garcia tem obtido muitas conquistas para o movimento feminista, sobretudo sob a perspectiva da mulher negra, da sua estética, do seu cabelo e das suas vestimentas. Sim, as referências para esse grupo de mulheres são sempre as negras da periferia, tão bem retratadas pela Carol Teixeira em seus quadros.

Legenda: Desconstruindo estigmas negativos sobre a estética da cultura afro-brasileira no CRAS Brasilândia / CRÉDITO: Divulgação

Legenda: Desconstruindo estigmas negativos sobre a estética da cultura afro-brasileira no CRAS Brasilândia / CRÉDITO: Divulgação

Hoje em dia, as ações do Coletivo estão concentradas na figura da Juliana Balduína, em Taipas, bairro que fica ao extremo norte dentro do distrito de Pirituba. Os encontros, que giram em torno das crianças, acontecem no quintal da casa dela, muitas vezes com o auxílio de outros educadores. Os assuntos abordados nas rodas são, principalmente, sobre a questão racial. Raquel diz que “o trabalho da Ju é manter essas crianças vivas e informadas. São crianças negras e muito pobres que moram no entorno dela, sem nenhum tipo de acesso à cultura no espaço público, não tem um CCJ por perto, muito menos uma biblioteca. Elas precisam entender o motivo de estarem ali, precisam conhecer suas histórias e se manter vivas”.

Legenda: Projeto Cultura no Quintal do Quilombo em Taipas, com a leitura dramática do livro Erinlé, o Caçador e Outros Contos Africanos com o educador Divino Silva / Crédito: Divulgação

Legenda: Projeto Cultura no Quintal do Quilombo em Taipas, com a leitura dramática do livro Erinlé, o Caçador e Outros Contos Africanos com o educador Divino Silva / Crédito: Divulgação


O despertar feminista dentro de Raquel

O Esperança nasceu concomitantemente com a filha de Raquel. Ela conta que sentiu necessidade de se desvencilhar da influência do marido, e que o Esperança Garcia teve papel fundamental nesse processo. “Concentrar minha energia no Coletivo foi muito importante” – ressalta. “Mudou minha relação com as pessoas, mudou meu comportamento, mudou minha visão do “ser mãe”, me ajudou a SER mãe. Diferente das padrões que existem, dos padrões que a gente tem de maternidade por aí.”

Não foram só as mudanças pessoais e internas as observadas por Raquel. “Houve também mudanças coletivas, sabe? Nós vínhamos de outros Coletivos em que a participação majoritária era de homens. Eles passaram a ter um tipo de cuidado mais voltado para o ‘vamos construir juntos’. Abriu-se um diálogo maior e um relacionamento mais agregador.”

Coletivo feminino e feminista, sim, mas não segregador. Os homens são bem-vindos porque fazem parte da vida das mulheres, principalmente dentro da periferia. Raquel cita um exemplo de como o movimento trouxe ganhos para a postura dos homens: “Eu estava lendo um livro sobre a saúde da mulher e um amigo, interessado no assunto, me pediu emprestado. Ele disse que precisava se informar porque queria ser diferente, deixar de ser machista e conversar mais com as mulheres. Pra mim, essa foi uma grande mudança”.


O relacionamento com a mãe entrelaçado ao feminismo

Raquel reconhece: ser mãe na periferia é carregar o filho e o mundo nas costas. Ela, como tantas adolescentes, teve um relacionamento difícil com a mãe, “o primeiro ser que a gente pega raiva na adolescência”. Hoje é uma relação mais distante do que ela gostaria que fosse. Por outro lado, ela entende mil coisas referentes à dona Izabel que não entendia com tanta dimensão antes, como os abusos pelos quais ela passou. “Minha mãe foi vítima de um casamento infantil, casou com 13 anos e meu pai tinha por volta de 20, 21. Ela sofreu abusos a vida inteira, além de violência física e psicológica, meu pai não a deixava sair de casa nem pra andar dentro do próprio bairro, muito menos pra visitar minha vó na Bahia”.

A história de dona Izabel infelizmente não é algo isolado. Há hoje no Brasil cerca de 550 mil meninas de 10 a 17 anos que são casadas, de acordo com um estudo do Instituto Promundo, realizado com base no censo do IBGE e publicado em 2015. A legislação brasileira considera crime ter relação sexual com menores de 14 anos, ainda que seja “consensual”, portanto a maior parte destas uniões acaba sendo informal.

O estudo ainda reuniu cinco principais razões pelas quais acontecem casamentos infanto-juvenis no Brasil, sendo elas: gravidez indesejada; controle dos pais sobre a sexualidade das filhas, com a ideia de que, “se começou a ter relação sexual melhor casar logo”; pobreza da família e necessidade de um provedor financeiro; falta de perspectiva na vida das jovens, sem incentivo à educação ou a obter um futuro profissional; e desejo dos maridos de se casarem com garotas mais jovens e, portanto, mais submissas a eles e fáceis de controlar.

Depois de aguentar anos de abuso e ter sete filhos, Raquel conta que sua mãe fugiu de casa e sumiu por mais de um ano. “Eu não lembro a idade dela na época, eu tinha uns 15 anos e já era mais cúmplice dela, falava pra ela ir embora de casa. Mas foi um período muito difícil, porque meu pai ficou revoltado, todo mundo culpou minha mãe, e como eles eram evangélicos ainda teve a pressão da comunidade da igreja. Todo mundo apontou o dedo pra ela, mas ninguém queria ver toda a violência que ela passou pra chegar a esse ponto”.

Quando reapareceu para os filhos e filhas, dona Izabel já estava trabalhando e morando no centro da cidade. Ela tinha conseguido se emancipar e Raquel conta que foi buscando, pouco a pouco, reaver o convívio com seus filhos. “Eu sempre ia visita-la no centro e levava minha irmã mais nova que tinha por volta de oito anos. E hoje nós mantemos esse contato, numa boa. Pra mim não foi um abandono, como as pessoas gostam de falar. Foi na verdade muito importante ver o salto que ela conseguiu dar e florescer enquanto mulher. A coragem de finalmente conseguir falar não pra tudo aquilo que ela sofria”.

Raquel, hoje, é separada, mas diz ter tido a felicidade de conviver com um companheiro bacana. “Minha filha, de sete anos, mora com ele, por exemplo. Isso foi um choque geral, quando muitas pessoas da minha família e meus amigos souberam, disseram ‘não Raquel, a filha tem que ficar com a mãe’. Como a gente quebra isso? Que filho e filha tem, necessariamente, que ficar com a mãe? Fazendo! Só que também não é uma posição confortável, já que a sociedade diz, todo mundo diz e você diz pra si mesma que está fazendo errado.”

Coisas da sociedade patriarcal, reflete, do mundo machista que acha que ao homem cabe apenar fazer o filho e colocar comida na mesa: “Mesmo aqueles que não fogem às responsabilidades acabam fugindo em alguma questão”, diz. “E quando existe cumplicidade, mesmo assim, ao decidirem ir a uma reunião escolar ou vou levar ao médico, eles ainda acham que estão fazendo demais”.

O feminismo negro pontua toda a entrevista. E mesmo participando de lutas, de eventos, de movimentos, Raquel ficou muito tempo sem falar se era ou não feminista. E justifica que não se sentia confortável com o termo porque teve contato com ele a partir de mulheres brancas, o que causou um distanciamento de classe. “Me incomodo muito com esse negócio de olhar outra mulher, pobre, preta, de periferia, como uma coitada que precisa ser colonizada. Cheguei a participar de algumas discussões de academia e fiquei horrorizada”.

Segundo Raquel, quando a juventude pobre e negra das periferias de São Paulo canta e dança o funk, por exemplo, esse parece ser um problema para um monte de gente:

As pessoas ficam ‘funk é isso, funk é aquilo’, mas gente, funk é o que tá tendo, é a manifestação cultural destes jovens ao lado do rap. Nas escolas, pega a letra do funk e discute com seu aluno, oras! Já cansei de fazer isso, nas oficinas que eu dei na Fundação Casa. Certa vez, um moleque fez um funk, mostrou a letra para o colega, que disse: ‘Nossa, mano mostra isso pra senhora não, porque não sei o quê”. Eu disse ‘agora eu quero ver’. Tinha vários absurdos ali, mas eu disse: “Tá bom, vamos lá, vamos discutir isso e tal. Aí gerou o maior debate, foi muito louco. Como é que eu vou querer falar sobre um assunto se não trabalho com as coisas que estão aqui. Não dá pra trazer a Simone de Beauvoir e blábláblá, de lá de não sei da onde, que é um livro que eu leio. Posso trazer ela também, claro, mas eu preciso trabalhar com os elementos que estão nesse momento. E a partir deles, trazer mil outros.”

Ela comenta, inclusive, que muito de sua formação feminista veio a partir do rap. A ativista participou de um grupo de rappers quando mais jovem e diz: “comecei a observar que aquilo que eu tava cantando não me representava como mulher, que era machista e aí passei a dar pitaco nas criações. Nessa época ainda não me reivindica feminista, mas a semente já tava plantada. As mulheres da frente nacional do hip hop também me ajudaram muito, nos anos 90 tinham várias que eu adorava”.

Foi só a partir da criação do Esperança Garcia que ela passou a bater no peito e se reivindicar como uma mulher negra feminista: “Depois que eu descobri o feminismo preto e periférico eu me senti mais a vontade e entendi que sempre concordei com a causa, porque nunca aceitei ou achei natural a submissão ao homem e as violências que passamos, até pela história da minha mãe”.

Raquel não acredita que o feminismo que ela chama de “engavetado, emparedado, eurocêntrico e branco”, vá mudar muita coisa dentro das periferias. “Até porque a gente costuma falar que as mulheres negras sempre viveram o feminismo da sua forma. Sempre trabalharam, cuidaram de seus filhos sozinhas, sempre fizeram muita coisa”.


A castração sistêmica dos símbolos da negritude

O debate racial está intrinsicamente ligado à periferia e, claro, aos movimentos sociais que dela emergem. Com o Esperança Garcia não foi diferente, Raquel diz que parte importante das ações antigas – e atuais – do coletivo é trazer o contexto histórico da escravidão e debater o racismo ao lado do feminismo: “Eu acredito que a gente só vai ter uma mudança drástica em qualquer sentido quando a gente passar a conhecer a nossa história”, diz.

Ela também discorre sobre a questão do genocídio da população negra e como ele está enraizado no cotidiano das pessoas que vivem em zonas periféricas:

Na periferia a gente convive com o genocídio desde que a gente nasce. A juventude negra já acabou naturalizando a morte no seu cotidiano. Eu lembro que na minha adolescência perdi muito amigo morto pela polícia, entre outras coisas. O jovem negro já é suspeito por estar na rua. Meu pai falava isso pra mim e pros meus irmãos, 'não quer ser morto, não fica na rua. Não quer ser estuprada, não fica na rua.’ Tomar enquadro se torna normal, apanhar na rua se torna normal, morrer por bala perdida se torna normal. Fizeram a gente acreditar que é normal a gente morrer, desde a época da escravidão. Por isso que a gente trabalha tanto com a autoestima um do outro no coletivo, o slogan é sempre: mantenha-se vivo.
Mapa da Violência 2014

Fonte: Mapa da Violência 2014

Desigualdade Racial e Segurança Pública em São Paulo

Fonte: Desigualdade Racial e Segurança Pública em São Paulo, pela UFSCar em 2014

Entre os debates raciais feitos pelo Esperança, ela comenta especialmente sobre sua ligação com as questões do colorismo e os entraves de se reconhecer como negra: “Algumas pessoas de dentro da periferia já se assustaram quando eu falei que sou negra. E isso me deixou pensativa, tipo, como as pessoas de fora acham que sabem quem eu sou e eu não sei? A gente costuma bater nessa tecla do que significa ser negro ou negra – que vai além do tom de pele. E dentro disso falar sobre o branqueamento que a gente passa, né? A miscigenação foi um projeto pra embranquecer a gente. Como deu errado, o esquema foi ‘então não se reconheçam’. Por isso eu falo pra minha filha ‘ninguém mais do que você tem que saber quem você é’.”.

A importância de falar incessantemente sobre a estética negra, principalmente dentro do movimento de mulheres, vem, segundo Raquel, da necessidade de trabalhar o reconhecimento de traços, ancestralidade e a autoestima. Ela conta que quando era criança passava ferro no cabelo – inclusive queimou grande parte de seu couro cabeludo fazendo isso – e negava todo e qualquer traço que remetesse à negritude.

“Eu gostava do meu cabelo, mas de tanto as pessoas falarem que era ‘armado’, ‘cabelo de vassoura’ e essas coisas, eu acabava alisando, até porque diziam que assim eu ia arranjar um emprego melhor”. Então a gente tenta levar essa experiência para as mulheres e para as meninas, o porquê reconhecer seus traços e cabelo é tão importante. Eu lembro até hoje da primeira mulher negra que eu vi dentro de onde eu morava com o cabelo afirmadão. E eu a vejo até hoje. Olho e penso: ‘você foi uma puta referência pra mim’.”

Na família de Raquel a questão da negritude era reafirmada com veemência por seu pai, porém os demais familiares têm, até hoje, dificuldade de se aceitar como negros. Sua mãe era negra de pele mais clara e tinha os cabelos lisos, “tanto ela, quanto o resto do povo de casa ficam inconformados de eu ter parado de alisar o cabelo e hoje ter dreads”, diz.

O problema que ela identifica é o estigma que existe no significado de ser negro – e, a partir daí, já ter toda a sua trajetória marcada por violências. Uma história doída que aconteceu com o irmão mais novo de seu pai na década de 70, por exemplo, influencia o modo de viver dos homens de sua família até hoje: “Meu tio tinha um blackpower, todo bonitão, e um dia foi parado na rua por uns garotos brancos e playboys no centro da cidade. Eles tiraram toda a roupa dele, cortaram o cabelo com tesoura e o xingaram de macaco, dizendo que ele não podia andar com aquele bombril na cabeça. Ele voltou pra casa pelado. Desde então todos os homens da minha família mantêm a cabeça raspada".

Atualmente Raquel desabafa que está num momento de retiro introspectivo da militância, afinal, já faz 10 anos que ela está participando constantemente de movimentos sociais: “Eu tô tirando um tempo para mim, porque preciso lidar com minhas mudanças também. Parece que não, mas dez anos é muita coisa e foram muitas coisas vivenciadas intensamente, dentro do Esperança Garcia, do Sarau Elo da Corrente, a construção da Raquel mãe, da Raquel Mulher...”. E finaliza:

“A gente precisa ter esse tempo pra repaginar, reformular, mas as coisas não podem parar enquanto isso acontece. Por isso é importante outras pessoas chegarem, como estão chegando. A luta não para um segundo, e a gente vai resistindo como pode”.

Zona Norte

Mulheres em Primeiro Plano

As moradoras da zona norte da cidade de São Paulo, Vanessa, Beatriz, Paloma, Mariana e Mallena fazem parte do coletivo Mulheres em Primeiro Plano, que tem a proposta de construir um canal de diálogo com meninas de 14 a 18 anos. “Quando a gente fala em empoderamento, sempre ouvimos sobre empoderar mulheres, e a gente gosta de trabalhar com adolescentes, com meninas do ensino médio, pois acreditamos que é nesta fase que elas estão começando a formar suas opiniões.” explica Vanessa Nogueira, integrante do coletivo.

As rodas de conversa acontecem na Escola Estadual Doutor Alberto Cardoso, localizada no Jardim Tremembé. Primeiro, o coletivo chega ao colégio e realiza uma palestra explicando o que é o feminismo e o empoderamento feminino, depois abre para discussão. A cada dia um tema diferente é abordado.

Legenda: Coletivo Mulheres em Primeiro Plano / Fonte: Divulgação

Legenda: Coletivo Mulheres em Primeiro Plano / Fonte: Divulgação


Contato com o feminismo

Foi durante um almoço, depois de uma aula de sociologia, que um professor de Vanessa a indagou sobre feminismo. Naquele momento, ela percebeu que não sabia do que se tratava. Pouco tempo depois, conheceu Mallena, com quem teve o primeiro contato com o movimento. “Assim que nos cumprimentamos, percebi que ela era feminista. Hoje, para mim, ela é um grande exemplo de mulher e mãe”, conta, com carinho e admiração na voz.


“Vamos sentar e conversar”

Vanessa cresceu em uma família cristã, que coloca a mulher em um lugar de submissão e sem poder de escolha. A criação, segundo ela, foi o que mais pesou para conseguir se impor como feminista dentro de casa. A socióloga Maria José Rosado, presidente da ONG Católicas pelo Direito de Decidir, traz algumas conclusões sobre religião e o papel da mulher na sociedade, tendo em vista o feminismo como corrente do pensamento contemporâneo. No texto O impacto do feminismo sobre o estudo das religiões, ela aponta que, “para algumas pesquisadoras e um certo número de teólogas, o androcentrismo é parte inerente das religiões. O investimento da população feminina nessas religiões é a expressão de seu conservadorismo. Elas propõem a criação de espaços religiosos alternativos, onde as mulheres possam fazer emergir novas formas de relação com o sagrado, também este pensado de maneira inovadora”, diz o texto. E completa: “Para outras, o problema das religiões históricas foi a sua apropriação pelos homens. Um dos objetivos das pesquisas a serem feitas deverá ser o de recuperar as tradições e os fundamentos das mesmas, para que as mulheres encontrem aí o seu lugar”.

Legenda: Vanessa Nogueira / Fonte: Juliana Saiani

Legenda: Vanessa Nogueira / Fonte: Juliana Saiani

Por chegar e dizer aos parentes: “espera aí, vamos sentar e conversar sobre feminismo”, Vanessa afirma que foi colocada como a chata da família, mas prefere discutir em vez de apenas ouvir e concordar. “As conversas acontecem mais naturalmente com minha mãe e minha irmã, com meu pai não rola um entendimento muito legal”, conta. Depois que Vanessa levou o feminismo para dentro de casa, percebeu que sua mãe e irmã, que antes tinham medo de falar, começaram a se abrir e se impor como mulheres. “Agora elas pensam ‘eu sou uma mulher e posso fazer o que eu quiser”.


Construção da militância

A internet tem ajudado muito na comunicação do coletivo. Elas criaram um blog e uma página no Facebook, e também possuem um grupo de WhatsApp, o qual usam como meio de comunicação com as adolescentes que participam dos encontros na escola. “A militância acontece tanto no grupo quanto nos encontros presenciais”, acrescenta Vanessa.

Uma história de mudança, que tocou muito as integrantes do coletivo, foi a de uma das adolescentes que participou desde o começo até o encerramento do projeto. Durante as rodas de conversa, um assunto que o grupo abrange muito é a busca por amor próprio e autoestima. “Essa garota tinha muito problema com o corpo, a família fazia críticas e ela não se sentia bem com ela mesma, sempre querendo se esconder. Quando acabou o projeto, ela viajou para a praia com a família e postou uma foto nas redes sociais de biquíni, com uma legenda super empoderadora. Naquele dia eu fiquei muito emocionada, porque é um resultado direto do nosso trabalho e também porque é importante ver de perto a vitória de uma adolescente com problemas”. Ao final do relato, Vanessa estava sorrindo. Não resistimos e sorrimos junto.

Legenda: Coletivo Mulheres em Primeiro Plano / Fonte: Divulgação

Legenda: Coletivo Mulheres em Primeiro Plano / Fonte: Divulgação

Em épocas de “Escola de Princesas”, deixar a mulher insegura com sua aparência é outra forma usada por uma sociedade machista para mantê-la sob controle. Se o homem deve ser inteligente e poderoso, a mulher aprende, desde muito nova, que seu valor está em sua aparência e comportamento, que deve ser delicado, como de uma princesa.

A pesquisa Girl’sAttitudesSurvey, realizada no Reino Unido pela organização Girlguiding, traz dados alarmantes sobre a autoestima e autoconfiança das meninas. Segundo o levantamento, 47% das garotas com idade entre 11 e 21 anos afirmam que a aparência já as impediu de realizar algo em mais de uma ocasião.

Nos últimos cinco anos, a organização verificou um declínio significante na autoestima das meninas de 7 a 21 anos. Se em 2011, 73% das garotas se consideravam felizes com sua aparência, em 2016 a porcentagem caiu para 61%. O estudo também mostraque o medo de alguém criticar seu corpo inibe 39% das meninas com idade de 11 a 16 anos de se manifestar durante uma aula.

O programa Uma vitória leva à outra, realizado pela ONU Mulheres junto com o Comitê Olímpico Internacional (COI), incentiva as meninas à prática esportiva, pois acredita que o esporte pode trazer avanços em diversos aspectos de suas vidas, inclusive na construção da autoconfiança. Alguns fatores mostram como as meninas são afetadas por essas questões. Na puberdade, por exemplo, em função das pressões sociais e dos estereótipos de gênero, a autoestima das meninas tende a cair duas vezes mais do que a dos meninos, e 49% delas abandonam a prática esportiva – porcentagem seis vezes maior em comparação com os rapazes.

Nesta fase da vida, os papéis que são impostos aos gêneros dividem com maior contundência o que é considerado adequado aos meninos e não adequado às meninas. Enquanto elas são submetidas a um controle e vigilância muito mais severos sobre seu corpo e sexualidade, há, ao mesmo tempo, uma tamanha objetificação de seus corpos pela sociedade e pelas diversas representações midiáticas.


Irmandade

Quando o projeto começou, Mallena Salesque tinha 21 anos, descobriu que estava grávida, e as primeiras que souberam da notícia foram as integrantes do coletivo. “Nós não estamos sozinhas, nós viramos uma irmandade, qualquer situação nós vamos conversar uma com a outra”, conta Vanessa, que ressalta: além de integrantes de um mesmo projeto, elas são mulheres que se apoiam.

Sobre ser feminista e mãe, Mallena diz que tem sido um desafio dia após dia e que o feminismo influencia totalmente a maternidade. “Ser feminista, empoderada, conhecedora e muito dona do meu corpo me fez entender que meu corpo foi feito pra parir. Não deixei ninguém me dizer que eu precisava fazer cesárea, meu parto foi humanizado, mas no hospital, acompanhado de uma doula”, conta. Ao falar sobre os sentimentos durante a gravidez, Mallena lembra que a maternidade é colocada para as mulheres de uma forma romantizada, o que acaba simplificando algo que é cheio de pluralidades e sensações. “Eu não queria ter filho, durante a gravidez me sentia culpada porque eu ainda não amava o meu bebê, e mal sabia eu que estava tudo bem, porque só é possível amar quando se conhece a pessoa. Além disso, eu me cuidava pra que ele ficasse bem, e o sentimento era esse, de cuidado mesmo. Daí, quando ele nasceu, também não sai enfiando chupeta pra ele parar de chorar, eu segui meus instintos, amamentei em livre demanda e ainda amamento”.

Para Mallena, o feminismo influencia muito na criação de seu filho, e vai influenciar ainda mais quando ele crescer. “Não crio ele com estereótipos de gênero, e, quando ele começar a entender as coisas, vou abordar todos os temas que o feminismo traz”.


“Medo de ser julgada e medo de ser presa”

Antes dos encontros acontecerem, as integrantes do coletivo avisam as alunas pelo grupo de WhatsApp sobre o tema que será abordado na roda de conversa. No dia em que foram falar sobre a legalização do aborto, Claudia*, uma das participantes, contou que sua prima faleceu alguns dias atrás por causa de um aborto. Por mais que o assunto fosse delicado, Vanessa conta que Claudia quis falar sobre o acontecido. “Ela disse ‘nós vamos falar, o aborto acontece e a gente tem que falar sobre isso”. Ao perguntarmos como a garota faleceu, Vanessa relatou que Maira* fez o aborto tomando remédio, e, nestes casos, as mulheres precisam ir até um hospital ver se é necessário realizar uma lavagem no útero. Ela não quis ir por medo de ser julgada ou até mesmo presa, e por causa disso acabou tendo uma infecção generalizada e faleceu.

O aborto no Brasil só pode ser feito legalmente em três casos, são eles: risco de morte para a gestante, gravidez decorrente de estupro e anencefalia do feto devidamente provada com exames. Em qualquer outra situação,o aborto é tipificado como crime pelo Código Penal.

Não descriminalizar o aborto é uma hipocrisia do judiciário brasileiro, afinal toda mulher que toma a decisão de abortar consegue meios para realizá-lo. A grande questão aqui é que mulheres com dinheiro pagam uma clínica especializada e aquelas que não têm condições financeiras acabam procurando métodos que as colocam em risco.

Para falar da magnitude do tema no Brasil, foi realizada a PNA (Pesquisa Nacional do Aborto), evidenciando que uma entre cinco mulheres brasileiras com até 40 anos de idade já abortaram pelo menos uma vez ao longo da vida. O estudo também mostra que a religião não impede que uma mulher interrompa a gravidez, já que a maioria elas se declarou católica no levantamento.

Realizada pela antropóloga Débora Diniz, professora do Departamento de Serviço Social da UnB (Universidade de Brasília) e do Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, e pelo sociólogo Marcelo Medeiros, também da UnB e do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a pesquisa concluiu que, geralmente, “o aborto é feito nas idades que compõem o centro do período reprodutivo feminino, isto é, entre 18 e 29 anos, e é mais comum entre mulheres de menor escolaridade, fato que pode estar relacionado a outras características sociais das mulheres de baixo nível educacional”.


#PrecisamosFalarSobreAborto

Antes da Pesquisa Nacional do Aborto era muito difícil termos dados e estimativas sobre a vida reprodutiva da mulher brasileira. A cada dois dias uma mulher morre vítima de um aborto ilegal, e porque elas morrem? Porque questões morais e religiosas prevalecem sobre assuntos de saúde pública. A culpa colocada em cima da mulher que aborta, além de moral é a de ser vista como uma criminosa, os riscos por querer interromper uma gravidez não desejada são permeados por culpa, morte e prisão. Por isso destacamos a importância de pesquisas como a PNA, que desfazem os mitos sobre o aborto e a mulher que aborta, assim trazemos algumas conclusões do estudo:

O uso de medicamentos para a indução do último aborto ocorreu em metade dos casos. Considerando que a maior parte das mulheres é de baixa escolaridade, é provável que para a outra metade das mulheres, que não fez uso de medicamentos, o aborto seja realizado em condições precárias de saúde. Não surpreende que os níveis de internação pós-aborto contabilizados pela PNA sejam elevados, ocorrendo em quase a metade dos casos. Um fenômeno tão comum e com consequências de saúde tão importantes coloca o aborto em posição de prioridade na agenda de saúde pública nacional.
Os níveis de internação pós-aborto são elevados e colocam o aborto como um problema de saúde pública no Brasil. Cerca de metade das mulheres que fizeram aborto recorreram ao sistema de saúde e foram internadas por complicações relacionadas ao aborto, o que corresponde a 8% das mulheres entrevistadas. Boa parte dessa internação poderia ter sido evitada se o aborto não fosse tratado como atividade clandestina e o acesso aos medicamentos seguros para aborto fosse garantido.”

“O feminismo precisa estar aqui”

Qual violência de gênero você sofreu hoje? De acordo com o Mapa da Violência de 2015, o Brasil é o quinto país que mais mata mulheres, com uma taxa de 4,8 mortes por 100.000 mulheres. Quando perguntamos sobre a importância do feminismo nas periferias, Vanessa foi contundente: “Não vou dizer que no centro não acontece, mas na periferia é onde o machismo mais atua, onde mais temos pavor, porque você não tem pra onde gritar ou pra onde correr. O feminismo tem que estar nesses locais, a mulher do centro tem um certo apoio, não vou dizer que ela não sofre opressão, mas o feminismo precisa estar na periferia com urgência”.

Legenda: Coletivo Mulheres em primeiro plano / Fonte: Divulgação

Legenda: Coletivo Mulheres em primeiro plano / Fonte: Divulgação

A Agência Énois – Inteligência Jovem, em parceria com o Instituto Vladimir Herzog e Instituto Patrícia Galvão, realizou uma pesquisa aprofundada e muito importante sobre o machismo enfrentado pelas mulheres das periferias. O estudo ouviu 2.285 mulheres de 14 a 24 anos, com renda familiar de até R$6000, de 370 cidades do país. Os dados mostram que a palavra “rua” é carregada de medo, e nela 94% das mulheres já foram assediadas verbalmente e 77%, fisicamente.

Além disso, 90% das mulheres já deixaram de fazer algo com receio da violência, como sair de casa ou usar certo tipo de roupa, e 74% sentiram tratamento diferenciado em casa por serem mulheres.

Terminamos nossa entrevista com Vanessa com uma frase muito direta e honesta. Ao ser questionada sobre o que é ser feminista na periferia,ela respondeu: “eu sempre vivi aqui, o feminismo para mim é a periferia” .

Zona Sul

Movimento de Mulheres do Heliópolis e Região

Crédito: Marina Garcia / Legenda: roda sobre Mulheres dentro dos Movimentos Sociais no CCA Lagoa

Crédito: Marina Garcia / Legenda: roda sobre Mulheres dentro dos Movimentos Sociais no CCA Lagoa

Era uma manhã de sábado do mês de maio e nos encontrávamos perdidas por entre as ruas estreitas que começavam e desembocavam em três ou mais caminhos diferentes na Cidade Heliópolis. Paramos para pedir informação a uma mulher, queríamos chegar ao CCA Lagoa (Centro para Crianças e Adolescentes), onde o Movimento de Mulheres do bairro se reunia. Muito simpática, ela fez questão de nos levar até lá. De acordo com ela, as ruas começam e não terminam dentro do Heliópolis, sem que ela nos guiasse poderíamos levar horas até nos achar.

Quando entramos no CCA – que lembrava uma escola infantil, com as paredes cheias de cartolinas desenhadas e coloridas – nos surpreendemos com a quantidade de mulheres que ocupavam aquele espaço. Eram mais de vinte que conversavam em forma de roda. Em uma sala lateral, seus filhos e filhas brincavam entre si.

O Movimento de Mulheres do Heliópolis e Região se reúne todo primeiro sábado do mês para discutir uma pauta específica. Naquele encontro o tema era A Mulher dentro dos Movimentos Sociais, assunto caro ao coletivo que iniciou a militância de mulheres no bairro há quatro anos. Os encontros são feitos em três etapas: primeiro uma roda de conversa sobre o assunto, depois uma divisão de grupos para realizar dinâmicas e apresentações sobre o que foi discutido e ao final uma roda pra falar sobre o que foi apresentado pelas integrantes.

Crédito: Marina Garcia / Legenda: Discussão sobre o tema Mulheres dentro dos Movimentos Sociais no CCA Lagoa

Crédito: Marina Garcia / Legenda: Discussão sobre o tema Mulheres dentro dos Movimentos Sociais no CCA Lagoa

Neste sábado, as mulheres conversaram e desabafaram bastante sobre o processo de Impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff – que havia passado pela Câmara dos Deputados em abril e aguardava o parecer do Senado que seria feito alguns dias após o encontro. Todas eram contra o processo, que chamavam de golpe, e fizeram dinâmicas sobre a importância do papel da mulher dentro da política.

Cenário da Câmara dos Deputados e do Senado brasileiro

Fonte:Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc)

O coletivo é grande, composto por mais de cinquenta mulheres que frequentam e participam dos debates e coordenado por dezessete delas. Mayara, auxiliar administrativa de 25 anos e uma das coordenadoras, diz que algumas ações do Movimento chegam a reunir mais de 100 mulheres de todo Heliópolis, como o “lanternaço” que elas organizaram em 2014 para reivindicar o direito à iluminação nas ruas, uma pauta urgente para a segurança das mulheres no bairro.


A formação do Heliópolis e a articulação política das mulheres

Crédito: divulgação / legenda: Formação do Movimento de Mulheres em 2012

Crédito: divulgação / legenda: Formação do Movimento de Mulheres em 2012

A história do Movimento é antiga e está intimamente ligada à luta por moradia na formação do Heliópolis. Conversamos com Antonia Cleide, atual presidenta da UNAS (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região), de 52 anos, que nos contou sobre a ligação da entidade não só com o Movimento de Mulheres, mas com grande parte da movimentação política do bairro.

Nordestina, ela veio do Ceará com a família para morar em São Paulo aos cinco anos de idade. Em 1984, aos 17, entrou para a Comissão de Moradores do bairro – um movimento de moradia que borbulhava já há muitos anos dentro do Heliópolis – para lutar pelo direito de ter uma casa. Ela, os quatro irmãos, a mãe e o pai viviam em barracos no que eles chamavam de alojamento.

O embate e a luta do movimento de moradia do Heliópolis com o prefeito da época, Jânio Quadros, era muito forte, de acordo com Cleide. Chegaram a conseguir que ele canalizasse três córregos que enchiam no bairro, com muito custo. Contudo em 1988, já em seu último ano de mandato, o prefeito renega o movimento de moradia: “ele disse que a gente era clandestino e que não ouviria mais as nossas demandas. Foi quando nos reunimos e fundamos a UNAS, uma entidade sem fins lucrativos e declarada de Utilidade Pública”.

A UNAS, portanto, foi criada pela necessidade de uma ferramenta de luta para pressionar o governo com mais força. Cleide, que é a primeira presidenta da entidade – com eleições a cada quatro anos –, conta que o mandato de Erundina em 1989 foi essencial para o fortalecimento da entidade e para fazer convênios muito importantes, como o MOVA (Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos), programa idealizado por Paulo Freire, secretário municipal de educação da época, para alfabetizar jovens e adultos que haviam deixado a escola.

Em 1989 o analfabetismo atingia um milhão de pessoas com 15 anos ou mais sem estudo e outros 2,5 milhões de jovens e adultos com menos de quatro anos de estudo em São Paulo – o que era mais um elemento de exclusão política e social.

Cleide conta que, na época, cerca de 40% das pessoas no Heliópolis eram analfabetas e que foram montadas 16 salas de alfabetização para jovens e adultos na comunidade: “A gente tinha saído de uma ditadura há pouco tempo e foi fundamental pra gente conseguir promover cidadania, em nível de direitos básicos e do desenvolvimento da comunidade mesmo”.

Ao final de 1991, o MOVA já contava com 71 entidades conveniadas e aproximadamente mil núcleos de alfabetização. O programa existiu até o fim da administração de Luiza Erundina, em 1992, e alfabetizou quase vinte mil alunos.

Conectando o histórico da UNAS com o Movimento de Mulheres, Cleide relembra que foram sempre as mulheres que estiverem na linha de frente das manifestações populares, demonstrando insatisfação e pensando em novas formas de lutar. “Era a mulherada que se reunia, desde 1971, no que elas chamavam de Clube de Mães, pra debater as questões de moradia daquela época. Depois a gente que ia falar com prefeito, ia pra luta mesmo”.

Em 1991, a migrante nordestina finalmente conseguiu construir sua casa e disse que não podia parar ai. “Eu precisava continuar lutando, porque a gente tinha assembleias com duas mil e quinhentas pessoas, e nem todas elas tinham conseguido casa também. Eu não podia parar até que todas tivessem”.

Crédito: divulgação / Legenda: Cleide em manifestação no bairro do Heliópolis

Crédito: divulgação / Legenda: Cleide em manifestação no bairro do Heliópolis

A luta por moradia no Heliópolis foi tomando força ao longo dos anos e ao mesmo tempo dando espaço para que outros eixos começassem a ser discutidos dentro da organização da UNAS. Foi a partir da análise e compreensão sobre o que a comunidade estava precisando, que o Movimento de Mulheres foi criado em 2012. “Ainda é muito novo, infelizmente”, conta Cleide, “mas já fez bastante mudança desde que começou. A gente começou a perceber que era preciso debater violência doméstica, já que tantas companheiras estavam passando por isso. Além de outras violências que não são naturais, mas são colocadas assim”.

Outros eixos também foram surgindo com o passar dos anos, e a UNAS hoje conta com treze deles, fora o Movimento de Mulheres e de Moradia: o Negro, de Juventude, Comunicação, Saúde, LGBT, Cultura, Esporte, Educação, Fé e Política, Assistência Social e Empreendedorismo.


O trabalho de formiguinha na militância feminista

Para dar continuidade à história do Movimento de Mulheres, conversamos com uma das coordenadoras, Indira Santos, que é educadora social em um dos CCAs, na região Imperador, e tem 21 anos. Ela nos recebeu em sua casa, no Heliópolis, onde mora há quatro meses com sua companheira Priscila, de 23, que trabalha como auxiliar administrativa no SMSE-MA Sacomã (Serviço de Medida Socioeducativa em Meio Aberto) – e que também faz parte da UNAS.

Indira conta que além das reuniões mensais, a militância do Movimento de Mulheres é, em suas palavras, um trabalho de formiguinha dentro de diversos espaços políticos e educativos no Heliópolis. Assim, os CCAs entram como um espaço chave para o trabalho de base do Movimento. Em todas as onze unidades divididas pelo bairro, que tem cerca de 200 mil habitantes, há ao menos um representante de cada Movimento. A ideia é que essas pessoas possam ajudar a formar o plano pedagógico que será trabalhado com as crianças, e assim conseguir dialogar assuntos como feminismo, negritude, intolerância religiosa, educação sexual, questões LGBT e assim por diante.

Crédito: divulgação / Legenda: Movimento de Mulheres do Heliópolis em um evento numa escola do bairro

Crédito: divulgação / Legenda: Movimento de Mulheres do Heliópolis em um evento numa escola do bairro

Os CCAs funcionam como centros de educação informal, complementares à escola. A prefeitura de São Paulo libera uma verba para o CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) e ele redireciona uma parte para UNAS, que a divide entre os CCAs e organiza quem serão as educadoras, coordenadoras e gestoras. No entanto, existem outros Centros, ligados às igrejas do bairro, que não fazem parte da UNAS.

Cada núcleo atende de 120 a 180 crianças e adolescentes, com idades entre 6 e 14 anos. Elas frequentam a escola em horário de aula e passam a tarde o a manhã no CCA. Mesmo não sendo um espaço obrigatório, Indira diz que as crianças vão porque as atividades propostas são interessantes e tem alimentação gratuita.

O método de ensino utilizado, segundo Indira, é inspirado em Paulo Freire: “a gente aprende junto com as outras crianças e pensamos a partir da realidade delas. Se eu der uma aula de arte, por exemplo, vou pegar um grafite ou pichações e pensar com eles como aquilo se transforma em arte, o que aquela manifestação representa e tudo mais”, explica.

Todas as atividades realizadas nos Centros são feitas com pessoas da própria comunidade. Indira comenta que se uma aula for sobre saúde, eles não vão chamar uma pessoa que faz medicina e é de fora, mas uma menina que trabalha na UBS (Unidade Básica de Saúde), que é a unidade de saúde que está perto da realidade daquelas crianças.

Infelizmente a UNAS não tem um projeto com enfoque no adolescente que sai do CCA aos 15 anos. Indira lamenta, porque o tráfico de drogas é muito forte dentro da comunidade e muitas crianças acabam saindo do CCA e se envolvendo com isso. No entanto, ela diz que algumas se interessam tanto pelo projeto que querem se formar para voltar como educadoras.


A formação política e feminista nas trocas com as crianças e adolescentes

Crédito: divulgação / Legenda: Mulheres do Movimento em frente ao CCA Lagoa

Crédito: divulgação / Legenda: Mulheres do Movimento em frente ao CCA Lagoa

Os CCAs acabam sendo espaços de formação política e cidadã de crianças e justamente por isso são tão fundamentais para o Movimento de Mulheres. Indira conta que conversar diretamente com as crianças e adolescentes sobre o que é feminismo é revolucionário, porque elas mesmas já começam a perceber o que tem de errado em seu cotidiano e começam a questionar esses padrões de comportamento.

Semanalmente eles fazem roda de conversas para dialogar os problemas que tiveram, seja de bullying, racismo ou machismo. “Essas rodas são muito interessantes, porque as próprias crianças entendem e conversam sobre o que é errado fazer e estabelecem as regras de convivência entre si”, conta.

Parte importante do método educacional consiste em que eles também montem as regras do CCA: “estávamos tendo problemas com as filas no banheiro. Como são vinte meninas para dez meninos, os banheiros femininos ficavam sempre lotados. O que as crianças fizeram? Numa destas rodas de conversa, combinaram que os banheiros seriam ‘unissex’. Eles mesmos fizeram uma plaquinha com folha de sulfite e colocaram nas portas”.

Legenda: Foto da porta do banheiro do CCA Imperador. Divugação: Indira Santos

Legenda: Foto da porta do banheiro do CCA Imperador. Divugação: Indira Santos

O processo pela quebra da desigualdade de gênero é feito em todas as instâncias, desde entender assuntos mais pesados como o que é violência sexual, até identificar tratamentos que diminuem meninas, as colocando como seres inferiores. Ela nos conta que com as crianças dos 6 aos 10 anos, é mais complicado abordar violência sexual e doméstica, mas que procura outras formas, mais leves, de entrar no assunto e mostrar que a menina tem que estar em pé de igualdade ao menino:

“Eles reproduzem muito a violência que veem, escutam e convivem dentro de casa. O mais comum é contarem sobre o pai que está preso ou sobre a mãe que apanha quase todo dia. Isso é muito recorrente e quando eles trazem esses assuntos, a gente conversa sobre. No mais, fazemos brincadeiras pra mostrar que meninas e meninos podem brincar de qualquer coisa, tanto videogame como boneca. Incentivamos que todas as crianças usem todos os brinquedos”.

A maior parte das crianças e adolescentes no CCAs é negra, porém Indira diz que essa identificação é difícil para eles já que o racismo ainda é muito forte. Ela conta que o único dia em que chorou em uma sala de aula, durante dois anos lecionando, foi quando um aluno de oito anos falou que não queria mais ir para escola dele porque uma menina loira o chamava de “macaco favelado”.

“Nesse dia eu desmontei porque é triste demais ver essa violência reproduzida desde tão cedo. Mas a questão do racismo é fundamental para o debate feminista, principalmente dentro da periferia, por isso a gente discute muito sobre o assunto. Desde conhecer e entender a cultura africana, até a compreensão que ‘cor de pele’ não é cor de lápis, porque existem diferentes tonalidades de pele”.

O preconceito com o que foge à regra também não escapa do convívio dessas crianças. Indira conta que tem um menino em uma das salas do CCA de apenas 8 anos que tem trejeitos afeminados, “mas não tem nem idade pra saber se é ou não gay”. Ele vinha sofrendo violência dos outros colegas, que o chamavam de “viado” em tom pejorativo. Além disso, tem uma criança de 6 anos que é filha de um casal de mulheres, e depois de conversar com as mães dela, ela resolveu se declarar lésbica e pautar o assunto com os pequenos.

A pedagoga propôs rodas de conversa e atividades pra entender da onde vem esse ódio e tentar desconstruir esse tipo de pensamento. “Isso aconteceu comigo, sabe? Quando eu era criança me chamavam de ‘maria macho’ porque eu usava roupas que não são consideradas femininas. O que me ajudou muito na época foi ter uma educadora incrível que era lésbica e quebrava com a feminilidade. Então quando me chamavam de sapatão, eu consegui transformar isso em algo positivo, porque me comparava com ela e eu a adorava”.

É interessante como cutucar essas estruturas machistas, homofóbicas e racistas promovem outras dinâmicas de comportamento. “Com os pequenos é bonitinho, porque eles passam a defender uns aos outros. Se alguém chama o outro de ‘viado’, eles vão e falam que isso não é um problema e que a vida é dele. Se não deixam uma menina jogar futebol, eles reclamam e tentam resolver. Xingamentos racistas acontecem muito raramente, porque eles já sabem que isso é algo inadmissível. E não é por medo ou apenas por seguir uma regra, é por terem compreendido o motivo daquilo ser errado. Acho que são pequenas mudanças que podem surtir efeito na formação deles”, conta.

Com os adolescentes de 13 e 14 anos, Indira diz que consegue puxar um debate mais sério a partir do que eles veem na TV ou na internet: “As meninas e os meninos trazem casos de violência que tiveram repercussão e a gente discute sobre isso, sobre quão próximo da gente essas questões estão e como reproduzimos violência sem perceber, porque está dado como natural”.


A relação entre maternidade e feminismo

No Dia dos Pais deste ano, ela fez uma roda muito intensa e profunda com os adolescentes, na qual eles debateram o que seus pais representavam em suas vidas. “Foi bem pesado porque em sua maioria o pai tá preso, fugiu, abandonou a mãe e não assumiu a criança ou não sabem quem é o pai... Então a roda foi interessante pra pensar nas configurações de família, o que levou ao debate sobre o que as mães deles significavam, e consequentemente sobre o que é ser mulher”.

Neste dia, a educadora social apresentou aos alunos a configuração da sua família: “eu pedi para que eles desenhassem suas famílias e desenhei a minha, eu, minha mãe, meu pai, a gata, a Priscila e a filha dela, Mikaela”. Isso suscitou uma série de perguntas tanto sobre a companheira de Indira, como sobre a filha dela. Ela nos disse que foi positivo e surpreendente quebrar o tabu sobre o assunto: “expliquei pra eles com naturalidade e eles acabaram levando numa boa”.

Conversando com a Priscila a respeito de sua filha, que hoje tem sete anos, ela nos contou que teve Mikaela aos 16 e pela falta de apoio de seus pais teve que sair de casa. A filha foi morar com o pai, na periferia de São Bernardo, há dois anos. Depois que a avó de Priscila morreu, ela disse que não teve opção: “ou eu trabalhava pra sustentar nós duas, ou ficava com ela e vivia de luz. Não tinha condição de ficar com ela com 300 reais de pensão por mês”.

Agora que Priscila está bem estabelecida, conseguiu terminar o colégio, está trabalhando e fazendo faculdade, a filha vai vir morar com as duas. “Hoje eu consigo reconhecer que fazer isso foi um ato de coragem, mas eu me culpei durante muito tempo. Tive uma depressão forte porque me achava a pior mãe do mundo. Além do meu próprio pesar, mesmo sabendo que não tinha outro jeito na época, tive que ouvir muita barbaridade, coisas como: ‘deixou a filha porque só pensa na namorada, porque não quer nada da vida, porque é sapatão’, foi muito difícil”.

O casal conta que só a partir do final do ano, quando Mikaela for morar com elas, que elas vão saber como vai ser a convivência diária com a menina. Mas afirmam que ela gosta de Indira, e trata a questão delas namorarem com naturalidade, apesar de ter um pouco de ciúmes, “o que eu acho natural, eu também tinha da madrasta do meu pai na idade dela”, conta Priscila.

Conversando sobre a relação de mães e filhas, Indira conta que quem a levou para as reuniões do Movimento foi sua mãe, Mercia, que hoje tem sessenta anos e coordena o SMSE, onde Priscila trabalha. “Minha mãe é demais, ela é uma das coordenadoras também. Ela não queria me deixar sozinha em casa aos sábados e me levava com ela. E eu amei muito o que aquelas mulheres estavam organizando, comecei a entender que aquilo era algo meu também, que era sobre o que eu vivia. Isso faz uns quatro anos”.

Contudo Indira se assume mesmo enquanto feminista há mais ou menos um ano e meio. Ela diz que não conseguia se apropriar do termo porque achava que era coisa de burguesa. Mais tarde percebeu que já era feminista em suas ações bem antes de conhecer o que o movimento de fato significava. “Feminismo pra mim é o que eu faço no meu dia a dia, mais do que um livro pode me ensinar”, diz.


Intolerância religiosa dentro da periferia

Um levantamento feito para a UNAS mostrou que 70% das pessoas que trabalham na entidade são evangélicas. Segundo o IBGE, São Paulo tem 2,4 milhões de evangélicos, 22% do total de habitantes da cidade.

Indira conta que a proporção de evangélicos na UNAS se dá pela forte presença da religião na periferia. E ela está certa, uma pesquisa do IBOPE de 2013 demonstrou que quanto mais distante do centro, maior a concentração de evangélicos. Há bairros no extremo da zona leste em que a proporção chega a ser de 12 vezes mais evangélicos do que em distritos centrais.

A educadora, que é do Candomblé, diz que não existe nenhuma religião melhor que a outra ou ruim, o que preocupa é o conservadorismo e intolerância que alguns pastores pregam inclusive a religiões de matriz africana. “A gente observou esses dados e vimos que temos que dialogar com estas pessoas para que elas não misturem a fé individual no trabalho que fazem. É complicado... Vejo muitos pastores querendo convencer pessoas tapando seus olhos para outros conhecimentos”.

Muitas mulheres evangélicas educadoras se negavam a discutir desigualdade de gênero dentro dos CCAs porque para elas “deus fez assim” e o que elas aprendem dentro da igreja tem que ser passado dentro da educação. Esse é um conflito que também acontece com algumas famílias das crianças e adolescentes.

No primeiro mês que Indira começou a dar aula no CCA Imperador aconteceu um burburinho de algumas crianças não quererem mais ter aula com ela porque ela era macumbeira. Já que toda sexta-feira ela vai vestida de branco em respeito à sua religião – no Candomblé, a cor branca representa Oxalá e seu dia é sexta-feira, assim, todos seus filhos devem usar branco em sinal de respeito e também de proteção.

Indira não se identifica como negra, apesar de não ter a pele clara e os cabelos lisos, mas contou que a perseguição contra o Candomblé tem um fundo forte de racismo já que além de ser uma religião da cultura africana, tem muitas pessoas negras que a seguem justamente por conta da ancestralidade e da vontade de reencontrar suas raízes.

De acordo com o Censo do IBGE, 0,63% da população brasileira é adepta de religiões de origem africana, contudo, elas são as que mais sofrem discriminação. Os dados do Disque Direitos Humanos, da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, mostram que de 2011 a 2014, 35% das vítimas de intolerância religiosa eram de matriz africana. Independente da religião, as pessoas negras (pretas e pardas) foram as mais afetadas, sendo 60% dentre as que declararam cor e 35,2% do total.

Numa tentativa de resolver o problema da intolerância religiosa, Indira reuniu as crianças e pediu para que cada uma trouxesse uma música de sua religião, para que fizessem uma roda com o objetivo de conhecer as diferentes culturas presentes ali. “Tinha outra professora que era evangélica e foi uma coisa bastante rica em diversidade e diferente pontos de vista. Os meninos e meninas adoraram conhecer outras perspectivas de mundo”.

Ela afirma que é um trabalho duro, que não se resolve do dia para noite, mas que não enxerga outro meio de mudança social senão pelo viés socioeducativo, principalmente com crianças e adolescentes. Depois de dois anos como educadora dentro do Movimento de Mulheres no CCA, ela já consegue ver um bom resultado, ainda que falte muito.


A formação política e feminista das mulheres do Heliópolis

Crédit: Divulgação / Legenda: Movimento de Mulheres de Heliópolis e Região na 5 Conferência Municipal de Politicas para as Mulheres

Crédito: Divulgação / Legenda: Movimento de Mulheres de Heliópolis e Região na 5 Conferência Municipal de Politicas para as Mulheres

As ações do Movimento de mulheres não param nos CCAs e nas rodas de conversas mensais. As coordenadoras buscaram projetos de politização feminista e empoderamento feminino para conseguir chegar em mais mulheres do bairro.

Em meio a esses quatro anos de movimentação política feminista, elas organizaram dois cursos anuais, em parceria com o governo federal, muito importantes para a formação destas mulheres.

O primeiro curso foi sobre Mulheres nos Espaços de Poder e Decisão. O projeto consistiu em abrir 15 vagas para mulheres em todos os CCAs e discutir ao longo do ano o movimento feminista, sua história, a representação política da mulher, controle social, diversas configurações de família, dentre outros temas que as coordenadoras do Movimento de Mulheres separaram para fazer o programa.

Ao final do curso, as mulheres que participaram foram indicadas para serem representantes em diversos núcleos, como nos conselhos participativos da saúde, da educação, de moradia. “Para uma mulher que vive em sua casa e não tem como debater com seu marido, ser representante do Heliópolis ou do Ipiranga num conselho de saúde é uma coisa muito grande. É um espaço de fala, uma representante do povo”, explica Indira.

As mulheres que participaram desses projetos era as mães dos alunos e alunas dos CCAs e também mulheres que faziam parte do MOVA, que tinham por volta de 60 anos e nunca tinham pegado num lápis para escrever. “Foi muito bom trabalhar com essa mulheres, porque elas já sabiam de muita coisa, como por exemplo os sintomas de um relacionamento abusivo – só não sabiam que esse era o nome. Foram trocas maravilhosas”.

O segundo curso foi sobre empoderamento, voltado especificamente para as mães dos meninos e meninas que participam do SMSE-MA. Quem organizou e participou deste programa junto a 80 mulheres foi a Priscila. “A gente se reunia uma vez por semana durante quase um ano, mas era muito difícil que elas falassem no começo. Muitas iam obrigadas, outras abandonaram no meio. Elas tinham muita vergonha, tinham vergonha de falar quem era seu filho e sentiam culpa ao mesmo tempo. A maioria estava passando por um processo interno muito delicado”.

Priscila conta que foi necessário apresentar oficinas de coisas práticas para prender a atenção delas durante algumas reuniões. Como a maior parte delas não trabalhava, ela chegou a organizar uma oficina para que elas aprendessem a fazer salgado e ovo de páscoa e ganhassem alguma renda.

Conforme foi passando o tempo algumas se sentiam mais a vontade pra desabafar, o que incentivava as demais. Priscila disse que nem conseguiu passar o conteúdo que havia preparado, “eu ficava ali apenas ouvindo e prestando atenção, quando tinha algum espaço conseguia associar muitas das coisas que elas falavam da própria vivência delas com o feminismo. E foi muito bacana”.

Nos últimos encontros as mulheres já estavam falando mais e na despedida do curso chegaram a gravar um vídeo de agradecimento por terem ganhado um espaço para poder falar, afirmando que tudo aquilo tinha feito muito bem a elas.

Ao longo dos encontros, enquanto elas iam conversando, desabafando e construindo, talvez sem perceberem de pronto, um círculo forte de confiança, suas mãos costuravam algo muito simbólico: a bandeira de tecido do Movimento de Mulheres do Heliópolis, na qual está escrito, “Enquanto houver vida, haverá revolução”.

Zona Sul

Mulheres na Luta

“A mulher está no foco de todas as lutas, mas nem sempre é vista”.

Quando saímos da estação de trem do Grajaú nos assustamos com a grandeza daquele lugar. O ponto de encontro com as mulheres do coletivo era na Casa de Cultura Palhacinho Careca, famosa pelos cafés filosóficos de Dona Vilane, mãe do Criolo, e localizada no que ficou conhecido como o centro do bairro – que se divide em tantos outros bairros, como uma cidade. Cidade que efervesce em resistência política, cultura e violência.

Crédito: Marina Garcia / Legenda: bairro do Grajaú

Crédito: Marina Garcia / Legenda: bairro do Grajaú

Era uma tarde quente de domingo e um churrasquinho com samba rolava solto num bar que estava pelo nosso caminho. Ao chegarmos na praça, a primeira imagem de destaque foi dos muros de concreto cinza que a circundavam, coloridos com pichações que gritam os anseios de quem vive no dia a dia da favela: contra o genocídio da população negra, o machismo e a redução da maioridade penal.

Assim que chegamos ao Palhacinho Careca encontramos a Erika, integrante do Mulheres na Luta e com quem tínhamos falado pela internet. Perguntei se ela morava longe dali. “Não tanto, dá uma meia hora de ônibus...Isso aqui é uma cidade, menina”, disse. De fato, Grajaú é o distrito mais populoso da capital paulista, com 445 mil habitantes, e o terceiro maior em dimensão, perdendo apenas para Parelheiros e Marsilac, ambos no extremo sul de São Paulo.

Crédito: Marina Garcia

Crédito: Marina Garcia

Sentamos no chão na frente da Casa e atrás de um muro grafitado com cores vibrantes e a frase “Quanto de preto tem na cor da sua pele?”. Um pouquinho depois chegou outra integrante do coletivo, Vanessa. Foi curioso notar logo de cara a diferença de idade entre elas. Erika é professora de Educação Física, tem 30 anos e é mãe solo de uma menina de oito. Já Vanessa tem 17, é comunicadora “não de formação” e trabalha no Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente de Interlagos (CEDECA).

Questionadas sobre a diferença de idade, elas falaram que o coletivo é bastante plural neste sentido, formado por mais quatro mulheres: Elânia, que faz mestrado em educação sexual em Araraquara, tem 33 anos; Aline, educadora social, tem 29; Camila, formada em rádio e TV, 26, e uma nova companheira, Micélia é, nas palavras de Erika, “cinquentona”. Naquela tarde, conversamos com apenas três delas. Camila chegou um pouquinho depois, quando o bate-papo já rolava há uns quinze minutos.


“Por que somos Mulheres na Luta?”

Crédito: Marina Garcia / Legenda: Da esquerda pra direita: Camila, Érika e Vanessa

Crédito: Marina Garcia / Legenda: Da esquerda pra direita: Camila, Érika e Vanessa

“Não é porque a gente tá militando. É porque a gente tá lutando diariamente como qualquer outra mulher. Lutando pra sustentar filho, sustentar casa, com dificuldade no transporte, dificuldade financeira e pessoal”.

O nome do coletivo veio de um evento que tratava sobre o tema da mulher na luta, organizado pelo CEDECA. Ela conta que foi lá que a maioria delas se conheceu e que acabou se inspirando na história de uma mulher guerreira do Grajaú, que estava à frente das ocupações pela luta de moradia e era desconhecida na história do bairro. “Foi depois disso que começamos a trocar ideia e ver como a mulher é sempre a principal figura e está no foco de todas as lutas, em várias frentes e nem sempre é vista. As pessoas sempre lembram do cara que é líder e se esquecem das mulheres que estão ali nas trincheiras”, contou.

A maior dificuldade que elas têm para tocar as ações práticas do coletivo é conseguir achar um momento em que consigam se reunir presencialmente. Por isso, a maior parte da comunicação entre elas é feita pelas redes sociais. Afinal, elas não têm muito tempo sobrando com a correria e responsabilidades cotidianas. “A gente tem nossas demandas pessoais. Eu, por exemplo, sou mãe sozinha e tenho que arcar com uma casa e com minha filha, fora meu trabalho. E aí você tem que estudar, quer se atualizar e tudo isso demanda tempo e dinheiro, que é uma coisa que, assim, é bem escassa pra gente. A gente tá na resistência o tempo inteiro”, afirma Erika.

O levantamento da Secretaria Municipal de Promoção e Igualdade Racial de 2014 mostrou que quanto maior a porcentagem de negros, menor é a renda média domiciliar da subprefeitura. Enquanto a subprefeitura de Pinheiros – que é a mais branca da cidade -- possuía uma renda de R$17.045,25, a da Capela do Socorro, composta pelos distritos de Socorro, Grajaú e Cidade Dutra, com 51% de pessoas negras, era de R$ 3.415,00.

É interessante notar como a internet se torna uma ferramenta importante para o desenvolvimento da militância dessas mulheres e como ter tempo é realmente privilégio de poucos. Os coletivos universitários do centro de São Paulo costumam se encontrar semanalmente, em reuniões que chegam a durar mais de duas horas e muitas vezes se estendem para bares na região. Ainda que unidas pelo fato de serem mulheres, há uma grande disparidade entre as formas de militar – ou lutar – no centro e na periferia.

O recorte entre as classes pesa e permeia não apenas os obstáculos para a militância, mas para viver, ou melhor, “resistir” dentro da periferia. E isso não acontece dentro do vácuo: o direito à cidade, como pontua o geógrafo britânico David Harvey, é negligenciado a essa parcela da população, o que desemboca em problemas estruturais na vida de cada morador.

Erika reclama sobre a falta de acesso à cultura e a dificuldade de locomoção dentro da periferia. “A gente tem apenas essa casa de cultura no Grajaú inteiro. Onde eu moro, lá no fundão, que é meia hora de busão se não tiver trânsito, não tem uma casa de cultura, muito menos uma biblioteca”, desabafa.

“A gente não quer ficar tapando o buraco da educação, o governo tem que fazer o trabalho dele. É a mesma coisa com os editais, a gente não quer migalha pra fazer trabalho do governo. A gente tá fazendo porque é uma demanda, porque precisa e alguém precisa falar disso”.

Érika conta que o Mulheres na Luta recebeu o VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) – programa criado pela Prefeitura de São Paulo para apoiar financeiramente atividades artísticas e culturais na periferia – durante dois anos, mas que o coletivo acredita que o edital do projeto é algo segregacionista. “Ele é excludente, não só o VAI, mas todos esses editais que nos prendem. Conheço pessoas maravilhosas, que não tem escrita, não são alfabetizadas e que têm várias ideias lindas e falam bem oralmente, mas que não têm aquela técnica de escrita. E elas não podem participar desse programa”.

Além disso, ela afirma que o valor dado pelo VAI – R$ 30 mil para um projeto de oito meses – é simbólico e veio, na verdade, para suprir um déficit que a própria Prefeitura tem com a cultura dentro das periferias. “É complicado você falar em casa de cultura onde oficineiros não recebem para estar aqui fazendo a oficina deles, gastando o tempo deles”.

Durante o tempo em que ganhou o VAI, o coletivo tinha dois projetos. Um deles consistia em fazer discussões, com homens e mulheres, em diversos pontos do Grajaú, levantando temas como o feminismo, o aborto, a violência doméstica e tantas outras questões que tangenciam a vida das mulheres periféricas. O segundo projeto era debater esses assuntos em oficinas dentro de escolas do bairro, mas aí a dificuldade era maior porque nem todas as escolas abriam as portas.

Elas contam que sofreram represálias de diretores e até de coordenadoras que questionavam se os grupos de conversa seriam fechados só para meninas, e que também não permitiam que elas discutissem sobre educação sexual e sexualidade. “Na visão deles, quando a gente fala sobre sexualidade, estamos falando de sexo. E o problema não é só de cima, existem muitos professores moralistas, infelizmente. Eles não estão preparados pra lidar com estas questões – e toda a estrutura não os incentiva a melhorar. Nossa base tá toda errada”, lamenta Érika.

Ao mesmo tempo em que alguns diretores buscam censurar o debate, Vanessa conta que era gratificante quando conseguiam fazer rodas de conversa e ver que meninas de 13 e 14 anos sabiam o que era feminismo e já se apropriavam do termo. “Muito do contato delas com o assunto vinha da internet. Elas falavam que seguiam tal e tal página e falavam ‘o corpo é meu’, começando a entender uma luta que é delas. Imagina em uma escola aberta, com o diálogo aberto... Ainda falta muita coisa”.

Vanessa analisa como a estrutura machista faz com que meninas também reproduzam o machismo de forma naturalizada – fazendo mal a si mesmas. Ela aponta que um dos maiores problemas nas escolas periféricas é o chamado TOP 10, que são vídeos divulgados na internet que expõem a sexualidade de meninas e meninos gays.

Ela afirma que este é um fenômeno principalmente periférico e que as adolescentes expostas chegam a cometer suicídio de tanta vergonha. E quem são os autores do TOP 10? Outros adolescentes, tanto meninos quanto meninas. Érika conta que teve um caso de TOP 10 feito por garotas para expor outras. Ela analisa que isso vem da imposição brutal de rivalidade entre mulheres, que é algo muito difícil de quebrar dentro das escolas. “A gente também procura trabalhar nos debates como podemos ser violentas umas com as outras e os motivos disso, entrando na reprodução do machismo por mulheres e no racismo de meninas brancas sobre negras”.


Maternidade e luta

Crédito: Marina Garcia / Legenda: Erika Santana

Crédito: Marina Garcia / Legenda: Erika Santana

Um dos pontos que sempre sobressaíam durante a conversa era o fato de Erika ser mãe e ser mãe solo. A sociedade parece enxergar nos filhos mais um empecilho para cercear o ir e vir das mulheres. Erika fala como o coletivo vem pensando em buscar alternativas para acolher mães nas atividades que elas propõem. “Porque muitas vezes a gente faz um debate, faz uma coisa e as mulheres se limitam a ir porque não têm como se deslocar com criança, não têm com quem deixar a criança, não tem um espaço ali que elas consigam sentar, aprender, prestar atenção, porque a criança vai estar agitada. Ela não vai tá nem aí com o que tá acontecendo”, explica.

Porém, o grande problema nessa equação é pensar quem tomaria conta desta criança nesses espaços. Erika questiona que se o cuidado continuar na mão de outra mulher, o problema persiste porque os eventos continuarão excluindo essas mulheres que ficarão de cuidadoras. Ela ainda analisa como a sociedade não enxerga crianças como cidadãs que merecem respeito como quaisquer outras. “Elas são vistas como uma coisa que não fala, não tem direito, não tem nada. Você vê muito isso dentro de ônibus, a criança não pode nem chorar”.


Casa de Mulheres

“O que é ser mãe na periferia? O que é a maternidade dentro da periferia?”

Enquanto conversávamos, elas falaram sobre terem vindo de uma “casa de mulheres”, termo que nos chamou atenção. Erika explica que ela ter vindo de uma casa de mulheres é o maior significado do que é ser uma mãe periférica, já que a porcentagem de abandono paterno nas periferias é altíssima e, dessa forma, a maior parte das mulheres acaba criando seus filhos por conta própria. “A minha maior influência feminista é a minha mãe. A presença do meu pai, com o pouco que ele conviveu com a gente, sempre foi violenta e machista. Tudo que vinha, desde o alimento até a roupa pra vestir, conversas e orientação de vida vieram da minha mãe. Somos um total de seis mulheres em casa, contando com minha mãe e minhas irmãs”.

Érika desabafa que tanto o abandono paterno como a violência doméstica são problemas graves vivenciados no cotidiano das mulheres que moram nas periferias. “Se não é a gente que passa por isso, foi a nossa mãe, tia, irmã ou conhecida”.

O Balanço de 2015 da Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180

Fonte: O Balanço de 2015 da Central de Atendimento à Mulher - Ligue 180

O motivo pelo qual a casa de Camila também é de mulheres, no entanto, é diferente, mas a força feminina permanece em destaque. “Minha avó veio do Ceará, teve 14 filhos e ficou viúva. Ela terminou de criar todos os filhos sozinha, então pra mim esse é um exemplo muito grande. Meu pai sempre esteve presente dentro de casa, mas devido a alguns problemas não trabalhava, então foi minha mãe que sempre sustentou a casa. Nunca teve o chefe, sabe? Sempre foi dividido, por isso que eu falo ‘casa das mulheres’ sempre”. Ela ainda conta que a palavra “feminismo” nunca foi pronunciada, porém sempre esteve presente na força de luta de sua mãe e sua vó.

Vanessa lamenta que muitas vezes a militância fique da porta de casa para fora, porque quando “você chega em casa tem um pai machista, um irmão machista e aí, na verdade, é muito difícil”. Ela levanta a questão de como uma mulher que é mãe pode se sentir enfraquecida diante de uma conjuntura violenta e machista dentro de casa, e como isso também enfraquece ou parece delimitar, de um jeito ruim, a militância de sua filha. “Nossa ideia é desconstruir, mas é muito fácil você só militar fora de casa e quando voltar só fechar os ouvidos e tudo certo”. Sem se estender no assunto, disse que é uma questão muito complexa e que uma fala dela não poderia contemplar toda a magnitude do problema.


“Ser feminista é um posicionamento político”

Crédito Marina Garcia

Crédito Marina Garcia

Ao ser questionada sobre o que o feminismo representa para ela, Camila abordou uma questão interessante: a falsa visão de que o feminismo de verdade é o que acontece somente no centro. “Antes de entrar pro coletivo eu achava que pra ser feminista eu tinha que estar lá no centro, me manifestando com aquelas mulheres. E estar lá levantando a bandeira é bacana, mas depois entendi que o que essas mulheres fazem aqui é feminismo há muito mais tempo. E às vezes elas nem sabem”.

Erika completa: “a mulher dentro da periferia acorda lutando e, quando consegue deitar, deita lutando”. Ela conta que demorou muito para se identificar como feminista porque tinha a mesma visão que Camila, já que não se discute feminismo nas escolas e na periferia como um todo. Hoje, ela lembra quando entrou numa associação de bairro da região onde mora, o Cocaia, que era comandada e montada por mulheres fortes, de olhar sensível para a questão de moradia. “Essas mulheres conseguiram escolas para seus filhos ocupando, dando aula, fazendo comida e limpando os espaços. Isso é muito revolucionário! As mulheres estavam na linha de frente disso tudo nem sabendo que estavam fazendo feminismo. Por isso que costumo dizer que não faço feminismo, o que eu faço é um feminismo negro periférico, que é da onde eu venho. Este sim me representa”.

Vanessa acrescenta que ser feminista é um posicionamento político que marca em todos os espaços, e não adianta: acaba caindo no estigma de “ser a chata”, por ser sempre lembrada como a pessoa que vai se posicionar quando alguém pisar na bola ou ter uma atitude machista. “E a gente vai bater de frente mesmo. Porque a ideia é que a gente reflita sobre várias coisas que estão no nosso cotidiano, como a gente pode ser opressor, uma sobre a outra, um sobre a outra”.


“Em qualquer ponto da cidade que eu chegar, a primeira referência que eu vou ter no olhar do outro é que eu sou negra”.

O abismo que separa o modo de pensar e de fazer feminismo no centro e na periferia, segundo Érika, resume-se à intersecção de opressões de raça e classe às quais as mulheres periféricas estão sujeitas. “Não tem como separar essas questões porque elas andam juntas e se fortificam juntas a cada dia. Não tem como pensar em acabar com o problema da luta de classes sem pensar em acabar com a questão do gênero e do racismo”, pontua também Vanessa.

Além da falta de estrutura de moradia, meios de locomoção e saúde pública precários, o racismo e o genocídio sofrido pelo povo negro também fazem parte dos desafios diários de quem vive na periferia. Érika pontua: “enquanto as mulheres do centro estão reivindicando a legalização do aborto, a gente tá reivindicando não só isso, mas também que nossos filhos permaneçam vivos e livres. A polícia vem aqui e mata. São os nossos filhos que eles matam. As pautas são bem diferentes, não tem jeito”.

Essas questões demarcam uma estratégia de militância que busca dialogar também com homens e principalmente meninos. “Se o problema é a estrutura machista e quem é contemplado por essa estrutura e faz sua manutenção é o homem, eu acredito que a discussão tem que ser feita com ele”, explica Érika.

As mulheres afirmam que os debates e as rodas de conversa são feitos com o foco na mulher, mas sem excluir homens. Ainda que elas pontuem que não existam homens feministas -- já que esta é uma luta feita pela e para mulher --, elas dizem que é preciso dialogar com aqueles que também são vítimas do sistema racista e classista. “Em qualquer ponto da cidade que eu chegar, a primeira referência que eu vou ter no olhar do outro é que eu sou negra. E assim é também com um menino negro da quebrada. Quando um moleque apronta qualquer coisa, a primeira característica que vai ser olhada nele é que ele é ‘pretinho’. Muito antes do gênero dele”, contextualiza Érika.

Ela afirma com veemência que prender esses meninos na Fundação Casa -- “que de casa não tem nada” --, não funciona. “Não vai ser excluindo eles ainda mais da sociedade que a gente vai sanar o problema”, diz. E o jeito que o coletivo enxerga para lutar contra isso é, também, por meio de um feminismo negro e periférico. Um longo e árduo caminho, sem dúvidas, mas disposição a essas mulheres de luta é o que não falta.

Zona Sul

Carolinas Soltem Suas Vozes

“Nós somos pobres, viemos para as margens do rio. As margens do rio são os lugares do lixo e dos marginais. Gente da favela é considerada marginal. Não mais se vê os corvos voando as margens do rio, perto dos lixos. Os homens desempregados substituíram os corvos (...). Escrevo a miséria e a vida infausta dos favelados. Eu era revoltada, não acreditava em ninguém. Odiava os políticos e os patrões, porque o meu sonho era escrever e o pobre não pode ter ideal nobre. Eu sabia que ia angariar inimigos, porque ninguém está habituado a esse tipo de literatura. Seja o que Deus quiser, Eu escrevi a realidade.” – Carolina Maria de Jesus, 1993

Foi assim que Carolina de Jesus escreveu e descreveu sua vida na obra Quarto de despejo. Migrante do interior de Minas Gerais, veio a São Paulo para trabalhar como doméstica. Quando ficou grávida de seu primeiro filho, porém, não conseguiu mais ser aceita para esse tipo de trabalho.

Em sua biografia, Muito bem, Carolina!, há relatos de que ela foi, além de empregada doméstica: “faxineira de hotel, vendedora de cerveja, cozinheira, passadeira, arrumadeira, lavadeira. Trabalhou para famílias ricas de advogados, médicos, juízes, políticos, dentistas. Lavou chão e pratos em restaurantes. Tomou conta de crianças. Quando aparecia um circo, apresentava-se como artista, cantora, declamadora, dançarina, malabarista, o que viesse...”.

Diante das inúmeras dificuldades que enfrentava, foi morar na extinta favela do Canindé, na Zona Norte de São Paulo, às margens do rio Tietê. Semianalfabeta, a escritora fez de seus manuscritos diários sua própria literatura.

Carolina era negra, migrante, pobre e moradora da favela, tudo aquilo que as publicações literárias negavam – e ainda negam. Afinal, a literatura brasileira tem o perfil de um homem branco, letrado e de classe média/alta. Não pertencer a esse gênero, raça e classe tirava o poder de ser sujeito da sua enunciação. Mesmo com todos os obstáculos, a autora conseguiu ser publicada e ficar entre os autores mais vendidos com seu primeiro livro Quarto de despejo, em 1960.

A periferia mudou muito desde a época da escritora, que dá nome ao coletivo Carolinas Soltem Suas Vozes. Hoje, a comunidade não vê mais como transitório o fato de morar na periferia; o desejo da população é ter qualidade de vida sem precisar se deslocar até o centro.

Nayra, Juliana, Thais e Pamela Melissa começaram o coletivo no Grajaú, extremo sul de São Paulo, com o objetivo de realizar intervenções artísticas que contassem histórias de mulheres negras e periféricas. A primeira apresentação do Carolinas ocorreu em outubro de 2015, no evento Carreata Poética em Parelheiros, distrito vizinho do bairro. A homenageada do dia era a escritora Carolina Maria de Jesus e, após a intervenção, o grupo quis continuar contando histórias de outras mulheres, sejam de suas famílias ou delas próprias.

Ilustração: Juliana Saiani Moysés e Paulo Maluza

Ilustração: Juliana Saiani Moysés e Paulo Maluza

O contato da estudante de jornalismo, Nayra, com o feminismo ocorreu com suas idas ao Sarau do Grajaú. “Conheci e dialoguei com mulheres de outros coletivos, como o ‘Mulheres na Luta’. Eu sempre tive inquietações, mas elas só acabaram ganhando o nome ‘feminismo’ a partir do momento em que vi outras mulheres passando por coisas muito parecidas enquanto periféricas e negras”. O coletivo faz o feminismo acontecer ao dar voz às vivências das mulheres que o integram, assim como fez a escritora Carolina Maria de Jesus.

As mulheres negras da periferia têm dificuldades para falar sobre suas próprias histórias. Nayra utiliza a palavra “coragem” para adjetivar o ato da mulher soltar sua voz e verbalizar aquilo que sente. “Somos silenciadas o tempo todo, quando você é uma mulher negra e moradora da periferia, contar sua história é uma militância”, diz, “levando em conta que a nossa existência já é um ato de militância por si só, porque todos os dias acontecem mil coisas que nos sufocam, nossa militância acontece quando nós gritamos e soltamos nossa voz”.

O coletivo era um sonho antigo da estudante de psicologia Thais, e é ela quem leva as questões sobre o genocídio da população negra para as intervenções do grupo. Segundo o Mapa da Violência de 2015 , enquanto as taxas de homicídio da população branca tendem a cair, vemos o aumento das taxas de mortalidade da população negra. “O número de homicídios de mulheres brancas caiu de 1.747 vítimas em 2003 para 1.576 em 2013 – uma queda de 9,8%. Já o número de homicídios de mulheres negras aumentaram 54,2% no mesmo período, passando de 1.864 para 2.875 vítimas.”


“O que eu tenho pra contar”

Para Nayra, escutar e estar com outras mulheres são momentos de cura, principalmente quando está com mulheres negras e periféricas. “Me sinto fortalecida, não só por ouvir as histórias, mas também por compreender minha própria caminhada e trajetória”. A mulher que Nayra mais tem contato dentro de sua família é sua mãe, e pensando no contexto das várias opressões que as mulheres de sua comunidade vivem, levar questões feministas para dentro da periferia e da própria casa é falar daquilo que antes era naturalizado e nunca dito. Com a proposta de ouvir mulheres, o coletivo também procura dialogar com as mulheres de suas famílias. “Eu sempre incentivo minha mãe a questionar”, diz.

Apesar das mulheres da comunidade acharem o trabalho do coletivo muito bonito e forte, algumas ainda têm o receio de não saber se o que elas têm para falar tem importância de fato. Aqui vale lembrar de Carolina Maria de Jesus mais uma vez, com sua literatura autobiográfica, provando que, sim, sempre teve muito o que dizer. Ela disse em Quarto de despejo e, depois, em Casa de alvenaria, ainda tinha muito o que falar, pois, apesar de não morar mais na favela, ainda fazia parte de uma sociedade machista e racista.

Crédito: Divulgação / Legenda: Coletivo Carlinas: Soltem suas Vozes

Crédito: Divulgação / Legenda: Coletivo Carlinas: Soltem suas Vozes


“Confrontar, acho que essa é a questão”

O lugar da mulher negra periférica em uma posição de submissão foi naturalizado por uma sociedade que tem dois terços de sua história tomados por escravidão. Nayra aponta que o feminismo tem a capacidade de potencializar o que as mulheres já possuem de bom, e que, com esse autoconhecimento, conseguem, portanto, ter a confiança necessária para falar tanto em casa como nos espaços públicos. Lélia Gonzalez -- uma das referências de mulher negra, citada por Nayra --, fala sobre a naturalização dos estereótipos do negro em seu artigo Racismo e sexismo na cultura brasileira:

Mulher negra, naturalmente, é cozinheira, faxineira, servente, trocadora de ônibus ou prostituta. Basta a gente ler jornal, ouvir rádio e ver televisão. Eles não querem nada. Portanto têm mais é que ser favelados. Racismo? No Brasil? Quem foi que disse? Isso é coisa de americano. Aqui não tem diferença porque todo mundo é brasileiro acima de tudo, graças a Deus. Preto aqui é bem tratado, tem o mesmo direito que a gente tem. Tanto é que, quando se esforça, ele sobe na vida como qualquer um. Conheço um que é médico; educadíssimo, culto, elegante e com umas feições tão finas... Nem parece preto.

O coletivo pauta as questões das mulheres na periferia, vivências que formam as bases do feminismo negro, e, também, a cultura negra de uma forma geral. Para Nayra, aquilo que é produzido por pessoas negras dificilmente é falado ou mostrado na mídia sem estereótipos. “O feminismo mostrado na mídia, aquele que não é feito por mulheres que tem experiência com o feminismo negro, não me contempla em muita coisa. O que eu busco é estar com mulheres que estão ocupando espaço, mesmo que seja na mídia independente. São essas que eu costumo acompanhar mais e trazer referências pras meninas do coletivo também”, conta.

Lélia Gonzalez, Djamila Ribeiro, Audre Lorde, bell hooks e Sueli Carneiro são algumas das referências de Nayra. Ela julga importante trazer a teoria para o coletivo, traçar paralelos com o feminismo negro feito em outros países e estudar o nascimento do movimento no Brasil para observar os avanços e mudanças no contexto das periferias. Apesar de toda a importância teórica, ela destaca a força do diálogo com as mulheres da periferia. “A vivência é uma questão extremamente importante, até para trazer o lado humano que a teoria acaba deixando mais quadrado”.


Identidade e ancestralidade

O coletivo usa da oralidade e do “contar histórias” para fortalecer e mostrar os caminhos trilhados pelas mulheres periféricas. Por meio das narrativas, ele busca compreender as identidades dessas mulheres, e, assim, preservar a memória de seus ancestrais.

Nayra chamou de “essencial” o empoderamento estético das mulheres. “Se reconhecer e conhecer sua ancestralidade é compreender o passado para saber quais são os passos que a gente deve dar de agora em diante”, diz.

“Nossos passos vêm de longe”, foi a citação usada por Nayra para dar significado às suas origens. Entender os passos já dados por suas antepassadas mostra o quanto a luta já caminhou e o quanto ainda precisa caminhar.

Crédito: Juliana Saiani / Legenda: Nayra Lays

Crédito: Juliana Saiani / Legenda: Nayra Lays

Não foi à toa que Nayra usou essa citação para falar da importância de manter viva a luta de outras mulheres. A frase faz parte da obra O livro da saúde das mulheres negras: nossos passos vêm de longe, coletânea de textos de ativistas negras, organizada por Jurema Werneck, Maisa Mendonça e Evelyn C. White.

As lutas por justiça social e contra o racismo e sexismo são pegadas que já estão firmadas no chão graças a muitas mulheres. O coletivo Carolinas Soltem Suas Vozes faz parte desse grupo, honrando as fortes heranças e enaltecendo histórias que já existem e que precisam ser contadas.

Zona Leste

Feministas da Leste

O que você lembra da sua adolescência?

Por que nós ensinamos para nossas meninas que elas devem invejar umas às outras e assim cultuar o ódio e a rivalidade entre elas? Ser uma adolescente pode ser algo extremamente difícil em nossa sociedade. Enfrentar o machismo diário sem o apoio daqueles que estão ao nosso redor fica impossível diante de um momento de tanta transição e vulnerabilidade.

Legenda: Coletivo Feministas da Leste / Fonte: Divulgação

Legenda: Coletivo Feministas da Leste / Fonte: Divulgação

Quando paramos para pensar na criação de meninos e meninas, percebemos uma diferença cruel na maneira como são educados. Enquanto meninos são estimulados a serem inventores e criativos com brincadeiras e jogos, as meninas são criadas para serem bonitas, ou melhor, “a mais” bonita.

A vida de uma adolescente pode ser bem solitária, com um pensamento fixo em ser aceita e fazer parte de um grupo. Sabendo disso, foi com enorme felicidade que descobrimos o coletivo Feministas da Leste, organizado na Escola Estadual João Sarmento Pimentel, localizada em São Mateus, Zona Leste da cidade de São Paulo.


Vazamento de “nudes”

O grupo começou após um acontecimento triste e infeliz com uma das meninas do colégio. A vítima teve suas fotos íntimas vazadas, e essa exposição causou um verdadeiro transtorno em sua vida, o que a fez sair da escola que estudava. Este é um cenário recorrente na vida de meninas que sofrem esse tipo de exibição indesejada.

O artigo 241 do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) criminaliza a divulgação, publicação e armazenamento de fotos ou vídeos, por qualquer meio, de crianças e adolescentes em situação de sexo explícito ou pornografia.

A ONG SaferNet trabalha há dez anos oferecendo auxílio psicológico às vítimas de vazamentos de fotos íntimas, buscando garantir os direitos humanos na internet. Em 2014, apontou que 81% das vítimas que pediram ajuda à ONG eram mulheres.

Insatisfeitas com a situação, as meninas conversaram com Clarissa, na época professora de História do colégio, e decidiram criar um coletivo feminista. “Muita gente precisa saber sobre o assunto”, diz Beatriz Marcondes, ex-aluna. Em agosto de 2016, o grupo completou um ano, e toda semana, às terças ou quartas-feiras, se reúne na sala de informática para uma roda de conversa.

Legenda: Roda de conversa do coletivo realizada no dia 30 de agosto / Fonte: Juliana Saiani

Legenda: Roda de conversa do coletivo realizada no dia 30 de agosto / Fonte: Juliana Saiani

“A gente não podia fazer nada na escola, não podia vir de shortinho curto ou de regata, a gente não tinha voz. Nós queremos mostrar que estamos aqui e temos voz, sim, nós não estamos aqui só pra receber cantada e ficar ouvindo ‘você tá bonitinha hoje’ ou ‘ah, você tá de short curto, não pode’”, afirma Kathelyn Caroline.


“Por que ele pode e eu não posso?”

Durante a roda de conversa, que estivemos presentes no dia 30 de agosto, uma das reclamações mais recorrentes das meninas foi a divisão “coisa de menina e coisa de menino” dentro de casa. Todas disseram ser costume ouvir de seus pais “você não pode sair porque é mulher”, e aquelas que têm irmão também sempre ouvem a mesma resposta, só que ligeiramente diferente: “ele pode porque é homem”.

Ao nascer, nós já nos deparamos com a divisão machista do mundo e com os estereótipos de gênero. “É como um professor falou pra gente uma vez, a criança já vem estipulada quando nasce, a primeira roupinha que uma menina ganha é rosa, o primeiro brinquedo é uma boneca”, comenta Letícia Oliveira, que depois completa dizendo não gostar nem um pouco de rosa. “Lá em casa já sabem que sou das trevas”, termina, rindo.

Não poder fazer algo simplesmente pelo fato de ser mulher é uma violência muitas vezes silenciosa. Meninas crescem com a sensação de que são incapazes de realizar atividades nas quais os meninos são incentivados a serem destaques. Um estudo feito pelo Programa Internacional de Avaliação de Desempenho Escolar (Pisa), para a Organização Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), mediu o desempenho de adolescentes de 15 anos em leitura, matemática e ciências, e mostrou que o Brasil é um dos países com maiores disparidades de gênero nos estudos. Seguindo ainda essa lógica, a OCDE evidenciou que, em todos os países verificados, somente 14% das mulheres escolheram carreiras em campos ligados à ciência, como engenharia e indústria.

O relatório O que está por trás da desigualdade de gênero na educação? concluiu que mesmo as meninas com alto desempenho escolar tendem a ter baixo desempenho em comparação com os meninos quando são convidadas a pensar como cientistas, a exemplo de quando lhes pedem para formular situações matematicamente ou interpretar fenômenos cientificamente. O estudo também mostrou que os pais são mais propensos a esperar que os filhos trabalhem em um campo da ciência, tecnologia, engenharia ou matemática, e não as filhas, - mesmo que ambos apresentem o mesmo nível de desempenho em matemática.


“Não, mãe, não é desse jeito”

A conversa foi entrando dentro da casa das meninas, depois da criação do coletivo; assim falar sobre feminismo com os familiares é outra luta presente na vida das Feministas da leste. Beatriz Marcondes, ex-estudante do colégio, mas ainda frequentadora dos encontros do coletivo, conta sobre o processo de desconstrução do machismo em sua casa.


“Só falam de Zumbi, esqueceram de Dandara?”

Dandara, Carolina Maria de Jesus, Beyonce, Pitty e as professoras Clarissa, Juliana e Elaine. Essas foram as respostas das meninas quando perguntamos sobre suas referências de mulheres que possuem um discurso feminista empoderador. Kathelyn, vestida com uma camiseta cheia de símbolos do feminismo, fala sobre o esquecimento de Dandara como uma mulher que lutou contra o sistema escravocrata. Sobre ela ainda se fala muito pouco ou quase nada nas salas de aulas, e isto nos faz pensar: pelo ponto de vista de quem a história é contada? O racismo e o machismo estão enraizados nas estruturas de nossa sociedade, assim a imagem de força e luta está sempre atrelada à imagem de um homem.

Apesar da Lei 10639/03 determinar a inclusão da História e Cultura Afro-Brasileira no currículo das escolas públicas e privadas, dificilmente aprendemos sobre mulheres como Dandara ou Carolina Maria de Jesus. Sobre a falta do reconhecimento da literatura afro-brasileira, a escritora Conceição Evaristo pontua em seu texto Literatura negra: uma poética de nossa afro-brasilidade que “a literatura brasileira é repleta de escritores afro-brasileiros que, no entanto, por vários motivos, permanecem desconhecidos, inclusive nos compêndios escolares. Muitos pesquisadores e críticos literários negam ou ignoram a existência de uma literatura afro-brasileira”. Ainda segundo Conceição, “o modo como a ficção revela com mais intensidade o desejo da sociedade brasileira de apagar ou ignorar a forte presença dos povos africanos e seus descendentes na formação nacional, se dá nas formas de representação da mulher negra no interior do discurso literário.”

Beyonce e Pitty são dois exemplos de mulheres que pautam o feminismo na mídia, e apesar de sabermos que as adolescentes são fãs das duas cantoras, pela fala entusiasmada das meninas pareceu muito mais forte e importante a presença das professoras como mulheres influenciadoras de suas vidas.

Legenda: Oficina de camisetas com o coletivo Feministas da Leste / Fonte: Divulgação

Legenda: Oficina de camisetas com o coletivo Feministas da Leste / Fonte: Divulgação

Clarissa era professora de História no colégio na época do acontecimento que gerou o coletivo, e hoje dá aulas na rede municipal, mas ainda frequenta as rodas de conversa com as meninas. Sobre o grupo, ela diz: “a ideia é que as meninas comecem a tomar conta e organizar sozinhas os encontros, mas por enquanto eu e as outras professoras damos uma ajuda”.


Observando mudanças

Em uma sociedade que cria suas meninas para se olharem como rivais e não como amigas, foi um alívio poder presenciar a reunião das garotas do coletivo. Talvez por isso, conhecer e ouvir a voz das adolescentes tenha sido tão emocionante. Por mais que saibamos de todas as lutas que essas meninas ainda vão passar como mulheres, saímos da escola felizes em ver que elas já ultrapassaram uma das barreiras colocadas pelo machismo, e assim formaram uma rede de apoio e companheirismo entre elas.

Criar vínculos e laços com outras mulheres é um dos efeitos mais bonitos que um coletivo pode alcançar, e não temos como acabar essa reportagem sem mostrar o vídeo abaixo da professora Clarissa falando sobre as mudanças nas meninas durante este primeiro ano das “feministas da leste”.

Zona Leste

Movimento de Mulheres da Cidade Tiradentes

O movimento de mulheres da Cidade Tiradentes é organizado por cinquenta moradoras da Zona Leste, das regiões de Guaianazes, Cidade Tiradentes, São Mateus, São Miguel e Itaquera. Antes da formação do coletivo com propósito feminista, elas faziam parte do movimento de moradia. Foi nele que perceberam as atitudes machistas que sofriam: “Observamos que os homens só queriam mandar em nós, mulheres, com suas ideias conservadoras. A maioria deles esperava que adotássemos o comportamento das nossas mães em relação aos nossos pais, e o das nossas avós para com o dos seus maridos. E então, acordamos e vimos que não somos obrigadas a nada”, conta Solange Noberto da Silva, de 59 anos, uma das integrantes do movimento.

Legenda: Solange Silva / Fonte: Juliana Saiani

Legenda: Solange Silva / Fonte: Juliana Saiani

Solange ainda faz parte do movimento por moradia, intitulado Associação de Moradores do Conjunto Habitacional Casa Branca, e que tem 80% de mulheres entre seus integrantes, embora somente homens façam parte da diretoria. Na nossa sociedade, também observamos essa falta da representatividade da mulher em cargos de poder na política. O Brasil apresenta uma das menores taxas de mulheres no Congresso Nacional, apesar de compor 52% do total da população e 51,96% do número de eleitores. No ranking de 190 países, o Brasil ocupa o 116° lugar, segundo os dados disponibilizados pela União Inter-Parlamentar. O ambiente institucional e político ainda apresenta pouca representatividade para as mulheres. Se considerarmos que as mulheres negras sofrem discriminações de gênero e racial, e que, quando são da periferia, sofrem ainda opressões sociais, a dificuldade para participar e pleitear um cargo institucional ou eleitoral fica ainda maior.


“Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres”

O movimento surgiu da percepção de que as mulheres estavam fora dos cargos de maior poder dentro da Associação de Moradores e aos poucos foi ficando cada vez mais forte, principalmente depois da Marcha Mundial das Mulheres – movimento feminista e anticapitalista.

De acordo com o site institucional da SOF (SempreViva Organização Feminista), “a Marcha Mundial das Mulheres nasceu em 2000 como uma grande mobilização que reuniu mulheres do mundo todo em uma campanha contra a pobreza e a violência”. A finalidade é acabar com as opressões sobre a mulher e transformá-las em protagonistas de suas lutas. A primeira atividade do movimento com a MMM foi em 2010, na terceira ação internacional, que contou com a caminhada de 3 mil mulheres de Campinas a São Paulo. A ação foi resumida nesta frase: “Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres”.

Entre as 50 integrantes do movimento de mulheres da Cidade Tiradentes, estão estudantes com formação superior e outras com ensino fundamental, e idades que variam entre 18 e 59 anos. Há muitas e diversas histórias de vida -- mães solteiras, casadas, viúvas, trabalhadoras em órgãos públicos e movimentos sociais, desempregadas e autônomas. Uma vez ao mês elas participam de conferências de mulheres, plenárias e audiências públicas que colocam em pauta as políticas públicas para mulheres na Cidade Tiradentes. Há, também, ações diretas com a comunidade, que participa do movimento de moradia e dos diretórios zonais do Partido dos Trabalhadores.

Legenda: Reunião de moradores na casa de Solange para regularizar as escrituras de suas residências / Fonte: Juliana Saiani

Legenda: Reunião de moradores na casa de Solange para regularizar as escrituras de suas residências / Fonte: Juliana Saiani

Perguntei se Solange entendia-se como feminista e ela disse que sim, contou como sua mãe dizia que ela sempre foi “do contra” e de que maneira questionava as proibições do pai. Lembrou que quando ia a festas com seus irmãos e irmãs mais velhos causava muita briga. “Eu me recusava a dançar com quem eu não queria, alguns valentões diziam ‘você não vai dançar com mais ninguém’. Meu irmão, medroso, acabava levando todas nós de volta para casa”. Episódios desse tipo, cotidianos, assim como a falta de autonomia e de liberdade da mulher, são alguns dos tópicos de discussão no Movimento. “Lutamos pelos direitos das mulheres na tentativa de quebrar com o conservadorismo e o patriarcado vigentes na nossa sociedade”, diz Solange.


“Conhecer nossos direitos e lutar por eles”

O modelo patriarcal é criticado pelos movimentos feministas porque coloca a mulher como sujeito passivo, sem vontade própria, e tenta tirar seu poder de decisão. É importante que as mulheres se organizem para reconhecer e discutir como mudar esse sistema que as oprime. Solange destaca a relevância da organização do movimento e de suas ações na comunidade em que moram, como participar de movimentos sociais e discutir políticas de igualdade. Assim “aprendemos a nos defender das injustiças sociais, a conhecer nossos direitos e lutar por eles”. Para ela, fazer parte do coletivo influenciou, sem dúvida, nas relações do dia-a-dia em sua casa, principalmente nas divisões de tarefas domésticas e nos direitos de igualdade entre seus filhos, filhas e marido.

Conforme o estudo Trabalho para o mercado e trabalho para casa: persistentes desigualdades de gênero desenvolvido pelo IPEA, observamos que as mulheres gastam mais que o dobro de horas por semana em afazeres domésticos comparadas com os homens. As mulheres gastam, em média, 26,6 horas semanais realizando afazeres domésticos, enquanto o público masculino dedica 10,5 horas.

As mulheres também gastam mais tempo com os trabalhos do lar se possuem filhos, e o mesmo não acontece com os homens: “No caso deles, inclusive, há uma leve redução do tempo dedicado a essas funções: quando o homem não tem filho, ele dedica em média 11,7 horas semanais ao trabalho doméstico e, quando tem, essa quantidade cai para pouco mais de 10 horas”.

Trabalho para o mercado e trabalho para casa: persistentes desigualdades de gênero

Fonte: Trabalho para o mercado e trabalho para casa: persistentes desigualdades de gênero

A exploração das mulheres pelos homens ocorre na expectativa de que são as mulheres que dedicam mais tempo à casa e aos filhos, assim, o ato de cuidar no geral permanece como obrigação da mulher. Os homens ficam com mais tempo livre, e dessa maneira conseguem uma grande vantagem para se dedicarem a outras atividades.

Legenda: Elza Santos e Laide da Silva, integrantes do Movimento de Mulheres da Cidade Tiradentes / Fonte: Juliana Saiani

Legenda: Elza Santos e Laide da Silva, integrantes do Movimento de Mulheres da Cidade Tiradentes / Fonte: Juliana Saiani

Uma das lutas do feminismo é fortalecer as mulheres conquistando políticas públicas que lhes tragam autonomia. “As reinvindicações para a abertura de creches e escolas é uma das pautas do Movimento de Mulheres da Cidade Tiradentes”, explicou Solange sobre a importância desse tipo de ação do feminismo na periferia. A publicação do IBGE, Estatísticas de gênero, realizada em 2010, analisa dados e mostra a relação direta entre a oferta de creches e a independência da mulher, tendo em vista sua inserção no mercado de trabalho. “(...) o nível de ocupação (razão entre população ocupada e população em idade ativa) das mulheres de 16 anos ou mais com filhos de 0 a 3 anos que frequentam creche é de 65,4%, bem superior ao daquelas cujos filhos não frequentam (41,2%) ou apenas algum filho frequenta (40,3%)”, conclui.

Outro dado sobre o assunto foi publicado no texto A luta por creches e a autonomia das mulheres, da cartilha Perspectivas feministas para a igualdade e autonomia das mulheres de 2014, elaborada pela SOF, que apontou que apenas 11% das crianças de 0 a 3 anos são atendidas por creches públicas. O fato de a mulher ficar sobrecarregada com os cuidados da casa e dos filhos aumenta a dificuldade para entrar no mercado de trabalho formal e disputar cargos com os homens.

A desigualdade de gênero é vista na discrepância entre o tempo dedicado aos trabalhos domésticos feito pelos homens e pelas mulheres. Solange contou que existe resistência por parte dos homens em relação às atuações das mulheres e suas tentativas de obter igualdade dentro do sistema hierárquico de poder dentro de casa. “Os homens não aceitam, e não veem com bons olhos, acham que nós queremos ser melhores do que eles, acham que é um desrespeito suas mulheres pedirem para trocar as crianças ou fazer um serviço doméstico”.

Legenda: Solange / Fonte: Juliana Saiani

Legenda: Solange / Fonte: Juliana Saiani

O feminismo, como movimento social emancipatório, assegura a liberdade e a autonomia da mulher perante as opressões colocadas em sua vida. Já vimos que as mulheres gastam mais tempo com os trabalhos domésticos do que os homens, e que por parte deles existe uma resistência quando a mulher quer igualdade dentro de casa, ou se decide fazer algo considerado como um trabalho masculino. ‘’Eu também quero aprender a assentar bloco, passar fiação na casa, mas eles negam, alegando que isso é coisa de homem”, disse Solange.

Nalu Faria, coordenadora da Marcha Mundial das Mulheres e atuante na SOF, fala sobre políticas públicas e faz algumas reflexões sobre a necessidade de aprimorar as relações de gênero, no livro Feminismo e a luta das mulheres – Análises e debates: “A desnaturalização dos papéis e promoção da ampliação das habilidades masculinas e femininas, com o objetivo de promover uma divisão equitativa de responsabilidades no âmbito familiar. Essa ampliação de habilidades deverá contribuir também para que as mulheres se sintam preparadas para exercer um conjunto de atividades no espaço público e no trabalho, como por exemplo, participar do gerenciamento de uma cooperativa” .

Solange disse que na periferia elas defendem direitos iguais entre mulheres e homens e critica a abordagem da mídia sobre o tema, “ela é a base do capitalismo, por exemplo, só mostra mulheres em trabalho inferior e sempre mostra os homens em trabalhos superiores”. A mídia ainda é carregada de valores simbólicos e veicula um estereótipo da mulher. A naturalização pela mídia de um mundo feminino subalterno em contraposição com um mundo masculino de poder reforça o papel inferior designado socialmente às mulheres. A ausência de papéis para mulheres em cargos de poder faz uma predeterminação, como se a mulher não pudesse exercer determinadas funções a não ser aquelas já estereotipadas.

Em 2014, o Geena Davis Institute on Gender in Media lançou o estudo Preconceito de Gênero sem Fronteiras: Uma Pesquisa sobre Personagens Femininos em Filmes Populares, que mostrou a discriminação de mulheres na indústria cinematográfica. O instituto pesquisou sobre a exposição da mulher no cinema em onze países, sendo o Brasil um deles. Analisando os dados, vimos as reais consequências de uma sociedade machista, ou seja, a sub-representação da mulher.

Preconceito de Gênero sem Fronteiras: Uma Pesquisa sobre Personagens Femininos em Filmes Populares

Fonte: Preconceito de Gênero sem Fronteiras: Uma Pesquisa sobre Personagens Femininos em Filmes Populares

Um dos dados mostra que a representação das mulheres apresentadas como trabalhadoras não corresponde à realidade. No Brasil, 58% das mulheres fazem parte da taxa de atividade (aquelas que estão trabalhando ou procurando trabalho), contra 25,4% de personagens mulheres nessa condição.

A homogeneização das mulheres é outro meio de excluir minorias. No Movimento de Mulheres da Cidade Tiradentes são discutidas as pautas sobre os direitos de todas, “mulheres, lésbicas, deficientes, negras, idosas e prostitutas”, acrescenta Solange. Ela termina dizendo que a luta do movimento é diária e não só nas datas comemorativas.

Legenda: Solange Silva / Fonte:Juliana Saiani

Legenda: Solange Silva / Fonte:Juliana Saiani

Todas essas desigualdades expostas no texto é o que gera indignação e, consequentemente, está na raiz da luta das mulheres na busca de sua independência. Observando os dados apresentados, constatamos que ocorre um entrelaçamento do machismo em todas os âmbitos da vida da mulher. Em casa, no trabalho, na mídia, tudo foi estruturado com a visão do homem para o homem. A luta dos movimentos feministas é acabar com esse mito criado em torno do “mundo feminino” e os estereótipos do ser mulher.

Zona Leste

Coletivo Pretas Peri

“Hoje tá mais lento que o normal, todo final de semana é uma desculpa”, disse a moça ao nosso lado no trem. Para sair da estação, demoramos mais ou menos 40 minutos.

É engraçado como a gente mora em uma cidade tão grande, a mais populosa do Brasil, e vira bairrista, não sai do próprio umbigo do bairro ou da região que mora e ainda assim diz conhecer bem a cidade.

Segundo o IBGE, a cidade de São Paulo possui mais de 11 milhões de habitantes distribuídos em 96 distritos, dos quais 57 ficam na periferia e somam cerca de 6.838.641 habitantes, contabilizando 63% da população. Deveria ser impossível falar da cidade sem olhar para a periferia, já que nela vive a maioria da população.

Não, nós não conhecemos São Paulo. E foi com esse pensamento que estávamos indo encontrar com as meninas do coletivo Pretas Peri, na estação Jardim Helena – Vila Mara, Zona Leste da cidade.

Legenda: Coletivo Pretas Peri / Fonte: Divulgação

Legenda: Coletivo Pretas Peri / Fonte: Divulgação

Jô, uma das integrantes do coletivo, mandou as instruções de como chegar ao local combinado: “Você desce na estação e já vai ver um parque e uma pracinha ali do lado, é lá na ocupação cultural casarão”.

Quando chegamos, Jô disse que aquele lugar na praça estava abandonado. Vários coletivos se juntaram, limparam tudo e agora realizam muitos eventos culturais. Logo ao chegarem, Janaina, com sua filha em cima de um skate, e Juliana, entramos no casarão para conversar sobre feminismo, empoderamento e periferia.

O primeiro sarau que realizaram ganhou o nome de Abraço Crespo. “Minha sobrinha deu um depoimento falando que ela alisou o cabelo, pois as pessoas chamavam ela de pixaim, e aí todas as mulheres começaram a falar sobre essas dificuldades com o cabelo, sobre como empoderar essas crianças que sofrem com isso, como ter orgulho da sua cor. Essa é a importância pra gente, de formar um coletivo com mulheres negras e periféricas.”

O vídeo abaixo, do canal de YouTube da atriz e poeta Jô Freitas, mostra uma das intervenções do coletivo. O local da apresentação artística foi o mesmo que realizamos nossa entrevista, a Ocupação Cultural Casarão.

Vivemos numa sociedade em que cada indivíduo tem uma relação única com o cabelo. Essa relação se dá de uma maneira particular, mas também por meio das experiências vividas da infância até a fase adulta.

O cabelo faz parte do perfil estético e da identidade de um sujeito. Usar as expressões "pixaim” e "ruim" para qualificar o cabelo do negro, enquanto o cabelo do branco é designado como "bom", mostra a construção de um padrão de beleza com base na desigualdade racial.

Assim, o indivíduo cresce com uma convicção reforçada pelo resto do mundo de que o cabelo é errado, feio e deve ser subjugado. Que todos devem ter cabelo liso, pois é o estilo considerado "bonito" e "bom".

Portanto, podemos entender que cabelo é mais do que uma característica estética, é um elemento que compõe a identidade e a preferência por determinado tipo de cabelo, além de refletir a dinâmica étnica em uma sociedade. Expressões negativas em relação ao cabelo do negro tentam empurrar para debaixo do tapete suas descendências africanas. Ter cabelo afro é mais do que feio: é um empecilho que lembra constantemente o indivíduo, principalmente as mulheres negras, que, se ele quiser ser aceito, não pode ter o cabelo crespo.


“Ser vista como referência”

Toda identidade é construída a partir da interação entre o contexto histórico e cultural do sujeito com o meio em que está inserido. A percepção de nós mesmos é formada com o nosso eu interior junto às impressões dos outros. O professor e antropólogo Kabengele Munanga, estudioso da questão do racismo sofrido pela população afro-brasileira, fala um pouco sobre essa construção em seu livro Identidade, cidadania e democracia: algumas reflexões sobre os discursos anti-racistas no Brasil:

A identidade é uma realidade sempre presente em todas as sociedades humanas. Qualquer grupo humano, através do seu sistema axiológico, sempre selecionou alguns aspectos pertinentes de sua cultura para definir-se em contraposição ao alheio. A definição de si (autodefinição) e a definição dos outros (identidade atribuída) têm funções conhecidas: a defesa da unidade do grupo, a proteção do território contra inimigos externos, as manipulações ideológicas por interesses econômicos, políticos, psicológicos, etc.

A afirmação de “tornar-se negro” em uma sociedade como a nossa, baseada na cultura racista que colocou o corpo do negro como inferior, pode ser vista como algo transgressor e mostra o descobrimento do amor-próprio. Todas as integrantes do coletivo falaram sobre o descobrir-se negra como uma forma de reflexão das suas particularidades. Além das poesias, danças e encenações que mostram a diversidade da cultura afro-brasileira, as meninas fazem das escolhas estéticas dos cabelos e roupas uma forma de reconhecer e fortificar a autoestima não só delas, mas de qualquer mulher que estiver em suas apresentações. A aceitação de uma representação visual que afirma sua negritude é, para elas, um ato de resistência.

Legenda: Sarau Pretas Peri / Fonte: Divulgação

Legenda: Sarau Pretas Peri / Fonte: Divulgação

Juliana enfatizou a importância dos projetos sociais dentro da periferia para maior contato com a arte e a cultura. Mas quando eles acabam todo mundo precisa ir até o centro para ter de novo esse envolvimento cultural. “Quando o projeto da Jô chegou, eu abracei a causa, eu fui me envolvendo, a gente vê a proporção que está tomando no bairro quando a molecada começa a se envolver com isso, muitos começam a tomar posse daquele espaço, que antes era ocioso, era um espaço que não os abraçava. Ainda falta muito mas, agora, a gente já pode ver um envolvimento maior com a quebrada.”

Como alguém sabe que não gosta de algo sem ter conhecido aquilo? A prima de Juliana foi uma das pessoas que agradeceram a realização do sarau com teatro, música e poesia. Ela disse que se não conhecesse o teatro, não ia sentir falta, mas, agora que conhece, não consegue ficar sem. “A gente vê que as pessoas têm sede, e o Pretas Peri chega com esse intuito, de alimentar a quebrada de alguma forma e mostrar que a arte periférica é aquela que a minha mana pode fazer. Aquele espaço é de comunhão, eles podem falar da sua forma, colocar para fora o que têm a dizer.”

Quando começamos a falar sobre feminismo, as meninas frisaram bem que o ser feminista para elas era visto na sua prática, no seu dia-a-dia, e que o empoderamento que elas buscam é feito a partir de sua própria existência. Só pelo fato de serem mulheres negras e andarem com seu cabelo black, ou com um turbante, já é um signo muito forte de resistência. “Esse empoderamento é feito pelo fato de a gente existir, ser atuante no nosso bairro e ser vista como referência, além daquela que está na novela todo dia.”

A questão do feminismo é algo importante para o coletivo, mas sem a utilização dele como rótulo. Jô quer mostrar para as mulheres da sua casa que elas podem viver em comunhão umas com as outras. “Em uma sociedade machista, querem que a mulher viva em um embate eterno”.


“Sou mulher, preta e da periferia”

Ainda falando sobre feminismo, Jô conta que uma mulher, durante um dos saraus, denunciou um homem, e disse que ela só fez aquilo porque elas já estavam movimentando o assunto com poesias muito fortes sobre o poder feminino. Foi aí que ela ficou à vontade para falar. “As coisas vão caminhando assim”, terminou.

Mas o que significa ser feminista? Perguntei se todas elas se consideravam como tal. Janaina disse que, se pudesse escolher um título para ela, seria o de revolucionária, e que o feminismo é uma das causas pelas quais ela luta “Vou lutar pelo feminismo porque eu sou mulher, preta e da periferia. Então vou brigar por essas três causas que estão na minha linha. Você pode se intitular ou não. Tendo as ações de mudança, é válido.”

Legenda: Sarau Pretas Peri / Fonte: Divulgação

Legenda: Sarau Pretas Peri / Fonte: Divulgação

Durante nossa conversa, ficou nítido como as opressões vividas pelas meninas não ocorrem de maneira separada. Como Janaina disse: ela não é só mulher, só negra ou só da periferia; a luta dela não é só por uma causa e sim por todas. Justamente por isso, o Pretas Peri não consegue se identificar com um feminismo que não tenha como base estes recortes. O “ser feminista” na percepção destas mulheres faz com que elas acabem tendo divergências com alguns discursos feministas que consideram engavetados, geralmente do meio acadêmico.

Em 1991, a feminista e professora de direito afro-estadunidense, Kimberlé Crenshaw, usou o termo “interseccionalidade” pela primeira vez como uma ferramenta de análise para evidenciar as violências que mulheres negras de classes mais desfavorecidas nos Estados Unidos viviam. Desde então, este se tornou um conceito usado principalmente por feministas negras acadêmicas – como Audre Lorde, bell hooks e Sueli Carneiro e Lélia Gonzalez, no Brasil – para pautar o cruzamento de opressões que Janaína mencionou em suas falas.

Não é comum que os coletivos feministas periféricos usem o termo “interseccionalidade” dentro de suas ações na periferia, já que ele é muito acadêmico e acaba afastando pessoas que não estão inseridas dentro deste meio. Porém, as meninas costumam usar de suas próprias vivências para evidenciar o que o conceito quer dizer. De qualquer forma, é importante que ele exista para que estas questões ganhem espaço dentro de ambientes acadêmicos e majoritariamente brancos.

Em um trecho do artigo Por um Feminismo Afro-latino-Americano, de Lélia González, voltamos ao que foi mencionado anteriormente para falar do estigma do “cabelo ruim” e essa ideologia do branqueamento usado para perpetuar uma cultura racista:

“Reproduz e perpetua a crença de que as classificações e os valores da cultura ocidental branca são os únicos verdadeiros e universais. Uma vez estabelecido, o mito da superioridade branca comprova sua eficácia pelos efeitos de estilhaçamento, de fragmentação da identidade étnica por ele produzidos; o desejo de embranquecer (de ‘limpar o sangue’, como se diz no Brasil), é internalizado com a negação da própria raça, da própria cultura.”

Os diferentes contextos de cada mulher diferem na sua maneira de reconhecer e fazer feminismo. Jô já participou de algumas conversas com mulheres do movimento feminista e não concordou com muitas questões levantadas. “Eu saí de lá pensando que estou em um outro contexto, onde vou ter que me relacionar com meninos que estudaram comigo, que são da quebrada, que são machistas. Pensei, também, como devo me relacionar com ele de uma maneira que não continue oprimindo as minas e nem me oprimindo, mas mostrando pra ele que não é dessa maneira que funciona aqui. Mostrar uma outra visão, sabe?”

Um feminismo que não pauta recortes de raça e classe acaba falhando em entender que tanto mulheres quanto homens não são uma classe homogênea. A socialização de um homem negro da periferia é diferente da socialização de um homem branco de classe média ou alta – o primeiro está no olho do furacão de duas opressões que se cruzam e tem como consequência o genocídio da juventude negra, por exemplo.

Quando entendemos a sociedade de forma interseccional, raça, classe e gênero são fatores que colocam o sujeito ora no polo do opressor ora no polo do oprimido. Assim, fica fácil compreender que uma mulher branca pode oprimir um homem negro enquanto branca, mas pode ser oprimida pelo mesmo enquanto mulher.

A questão da mulher, sua condição e posição tem sido refletida ao longo dos anos por variadas teorias e correntes de pensamentos. Esse fato valoriza a construção da teoria feminista, a qual tem apresentado sua consistência e eco em diversas sociedades e esferas do conhecimento. O aparecimento dos discursos feministas aconteceu no século passado, na década de setenta, em meio a discussões políticas e sociais, que ocorreram em várias sociedades ocidentais. Embora, provavelmente antes disso, já existissem ideias e teorias sobre a condição da mulher, é nesse momento que se inicia certa organização de tais hipóteses, possibilitando a introdução de discussões nos mais variados meios, particularmente no acadêmico, científico e nos movimentos sociais.

Não existe um só tipo de mulher, é necessário o reconhecimento de sua heterogeneidade. As diversas desigualdades sofridas por todas são uma maneira de representar as mulheres como sujeitos políticos. A escritora Luiza Barros aponta as contradições racistas do movimento feminista brasileiro em seu livro Lembrando de Lélia Gonzalez:

“Padeciam de duas dificuldades para as mulheres negras: de um lado, o viés eurocentrista do feminismo brasileiro, ao omitir a centralidade da questão de raça nas hierarquias de gênero presentes na sociedade, e ao universalizar os valores de uma cultura particular (a ocidental) para o conjunto das mulheres, sem as mediações que os processos de dominação, violência e exploração que estão na base da interação entre brancos e não-brancos, constitui-se em mais um eixo articulador do mito da democracia racial e do ideal de branqueamento. Por outro lado, também revela um distanciamento da realidade vivida pela mulher negra ao negar toda uma história feita de resistências e de lutas, em que essa mulher tem sido protagonista graças à dinâmica de uma memória cultural ancestral – que nada tem a ver com o eurocentrismo desse tipo de feminismo”.

A última questão levantada na nossa conversa focou a distância entre o feminismo teórico acadêmico e a prática. Segundo Juliana, “falar para aqueles que já sabem o que é o feminismo é fácil, mas chegar na quebrada e mostrar para uma menina que ela pode, sim, jogar futebol, é uma atitude que também forma o feminismo”.

Todas reconhecem a importância das teorias, mas a prática é que faz a maior movimentação sobre o assunto na periferia. Jô fala sobre como se sente presa com a definição do termo e conta, também, sobre o autorreconhecimento como feminista. “Eu me reconheço feminista porque os meus atos e as minhas ações na quebrada estão na pauta feminista, eu sou feminista porque quero direitos iguais e dignidade, eu sou feminista porque estou com as minhas manas, estou querendo retomar essa coisa de ‘somos fortes juntas’ e vamos repensar o mundo de outra maneira que não seja essa machista. Eu não quero que as crianças da minha comunidade tenham uma visão ou sejam criadas de uma maneira sexista, então eu acho que a gente é feminista pelo que a gente faz”.

Legenda: Coletivo Pretas Peri / Fonte: Divulgação

Legenda: Coletivo Pretas Peri / Fonte: Divulgação

Pensar em um movimento com reflexões e ações que alcancem todas as mulheres é um desafio para o feminismo, seja ele no meio acadêmico ou nas ações práticas cotidianas. Complementar e discutir as diversas opiniões e posições é fundamental para o crescimento e organização das mulheres, Assim, aumentaremos ações feministas em um mundo no qual a voz dos homens ainda é predominante. Depois de conversar com o coletivo Pretas Peri, vemos que a movimentação das mulheres na periferia se faz com força e inquietação, nas suas variadas formas, por meio da poesia, da dança, do teatro, dos turbantes e com muita luta.

Quem Somos

Ana Júlia Gennari

Nasceu e foi criada em São Paulo, mas sempre com um pé fincado nas montanhas de Minas Gerais. Descobriu o Jornalismo depois de cursar alguns anos de Direito e mergulhou de cabeça no movimento estudantil. Foi uma das fundadoras da Frente Feminista Casperiana Lisandra e do Coletivo Negro AfriCásper. Tem 25 anos, “apenas duas mãos e o sentimento do mundo”.


Juliana Saiani Moysés

Cresceu em Sertãozinho, e veio morar na cidade de São Paulo para estudar Direito, depois de trabalhar na área percebeu que aquele não seria seu caminho. Depois, voou para a Faculdade de Letras, da Universidade de São Paulo e para o curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. Até hoje não se acostumou com os barulhos da cidade grande, acredita que “mistério sempre há de pintar por aí” e sonha com uma “casa no campo onde possa ficar do tamanho da paz”.


Essa reportagem foi produzida como trabalho de conclusão de curso deJornalismo da Faculdade Cásper Líbero, sob a orientação da Prof.Ms. Bianca Santana.
O site foi programado por Juliana Reis.


AGRADECIMENTOS:

Agradecemos aos coletivos que dispuseram de seu tempo e dividiram uma importante parte de suas vidas conosco; em especial às integrantes que nos encontraram e colaboraram de tão bom grado com nosso trabalho, são elas:

Érika Santana, Vanessa, e Aline do Mulheres na Luta; Raquel Almeida do Coletivo Cultural Esperança Garcia; Michele dos Santos e Miriam Selma do Levante Mulher, Antonia Cleide Alves, Mayara e Indira Santos do Movimento de Mulheres do Heliópolis e Região; Jô Freitas, Janaina Cintia e Juliana Jesus do Coletivo Pretas Peri; Clarissa Sanches, Beatriz Marcondes, Leticia de Oliveria, Aline Dannibali, Isabelli Soares, Laura Beatriz e Kathelyn Caroline do Coletivo Feministas da leste; Vanessa Nogueira do Coletivo Mulheres em Primeiro Plano;NayraLays do Coletivo Carolinas Soltem Suas Vozes; Solange Norberto, Elza Santos e Laide da Silva do Movimento de Mulheres da Cidade Tiradentes.

Obrigada a Tica Moreno e Jonas Medeiros por serem tão atenciosos e nos passarem alguns contatos que foram fundamentais.

Agradecemos à Marina Garcia pela ajuda inicial com as filmagens e à Giovanna Rabbath por nos ajudar com todas as edições de vídeos.

Ana Júlia agradece e dedica essa reportagem à sua avó, Dona Teca, por ter sido um exemplo de mulher de fibra, com uma trajetória de vida e luta belíssima que a inspirou a fazer esta reportagem e que deixou muitas saudades. Agradece aos seus pais, Maristela e Wellington, pela compreensão e incentivo para que ela seguisse o caminho que escolheu, e também por todo cuidado e suporte principalmente neste ano tão importante. Às suas tias, Neusa, Teresa, Roseli e Luzia, pelo carinho infindável mesmo nas horas mais obscuras e aos seus tios Geraldo e Gilberto pela proteção e cumplicidade. Por fim, às suas amigas e amigos, em especial à Bruna, Tamiris, Vinícius e Franklin, pelo apoio incansável, ajuda e paciência durante este ano, além de todas as opiniões que contribuíram para a reportagem ser o que é.

Juliana gostaria de agradecer à sua família, pelo carinho e apoio. Ao seu avô Jayme pelas palavras de incentivo. À sua irmã, Marcela, pela proteção e mimo, digno da melhor irmã do mundo (a caçula agradece), e pelos momentos de risada e conversas sobre a vida. Aos seus pais, pelo espaço para crescer e pelo aprendizado da palavra respeito. À sua mãe de cabeça Iansã, pelos ventos bons nos momentos de angústia. Aos amigos que sempre acalmaram as ansiedades que morar na cidade grande traz por meio da troca e aprendizado que cada um trouxe em sua vida.

À nossa orientadora, Prof.ª Bianca, agradecemos imensamente pela tranquilidade e serenidade com que nos conduziu nas horas de fragilidade. Pelas conversas e pela sensibilidade não só com o tema, mas com a vida. Sua maneira de encarar o mundo nos trouxe inspiração e força para concluir essa reportagem.

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